Quinta-feira, 05 de novembro de 2026
Por Redação O Sul | 5 de novembro de 2026
Ficar bonita e ter o corpo dos sonhos pode custar muito caro se as pessoas não pesquisarem onde e com quem fazer os procedimentos. Na busca incessante por padrões estéticos e pela autoestima elevada, o mercado de cirurgias plásticas e procedimentos minimamente invasivos no Brasil tem crescido muito. Na mesma proporção, cresce um cenário alarmante: clínicas clandestinas surgem a cada dia, cirurgias são barateadas de forma irresponsável e falsos profissionais ou equipes inaptas atuam sem fiscalização.
Para que casos como os da empresária Andréia Vieira Gaspar, de 51 anos, morta em Goiânia em agosto deste ano, após realizar seis procedimentos; de Lourdes Maria de Lima Pessoa Padilha, de 24 anos, que teve uma parada cardiorrespiratória durante cirurgias de prótese de silicone e lipoescultura em Cuiabá; da médica Lilian Calixto, de 46 anos, que fez um procedimento com Denis Furtado, o Doutor Bumbum; e de Fernanda Rodrigues, a MC Atrevida, que se submeteu a uma lipoaspiração em 2020, em Vila Isabel, no Rio, não se repitam, a Polícia tem feito operações como a Por Elas, que fechou a Clínica de Estética Cecília Toledo, em Laranjeiras, onde três mulheres morreram.
Além da polícia fazer esse tipo de operação para fechar as clínicas, as pessoas também precisam se precaver e pesquisar bem com quem e onde farão esse tipo de procedimento. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e os Conselhos Regionais de Medicina intensificaram os alertas à população e orientam que se consulte, no site da SBPC, a situação do profissional que realizará o atendimento.
Riscos invisíveis
A cirurgiã plástica Cecília Ruiz é formada em Medicina pela Faculdade Técnico-Científica Souza Marques, no Rio de Janeiro, e fez residência em Cirurgia Geral pela UFRJ e em Cirurgia Plástica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Membro da SBCP e com Título de Especialista em Cirurgia Plástica, realizou complementações em Reconstrução Mamária pela Universidade de São Paulo (USP) e em Microcirurgia e Reconstrução de Cabeça e Pescoço pelo A.C.Camargo Cancer Center, além de especializações e aperfeiçoamentos em cirurgia mamária, rinoplastia e lipoaspiração HD. Ela fala sobre os riscos invisíveis que o paciente corre ao realizar um procedimento em clínicas sem alvará ou com profissionais não qualificados, atraídos por preços muito abaixo do mercado.
“O principal risco é acreditar que uma cirurgia plástica se resume ao procedimento em si, quando, na verdade, a segurança depende de uma série de fatores que começam muito antes da cirurgia e continuam durante todo o pós-operatório. Uma estrutura inadequada pode não dispor dos equipamentos necessários para monitorar o paciente, dos recursos para atender a uma emergência ou de condições apropriadas para a recuperação. Em uma intercorrência, como uma hemorragia, uma complicação anestésica ou um evento tromboembólico, cada minuto pode fazer diferença”.
Segundo a especialista, não é só a estrutura hospitalar que conta. “Outro ponto fundamental é a qualificação do profissional. A cirurgia plástica exige formação específica, conhecimento da anatomia, planejamento individualizado e capacidade de reconhecer e tratar complicações. Quando essas condições não são respeitadas, aumentam os riscos de resultados insatisfatórios, infecções, cicatrizes inadequadas, deformidades e até consequências graves para a saúde e a vida do paciente. Um preço muito abaixo do mercado é um ponto de atenção. O paciente precisa saber quem realizará a cirurgia, onde ela será feita e se o local dispõe de estrutura adequada. Na cirurgia plástica, a segurança precisa ser um critério inegociável, e não um item que pode ser sacrificado para reduzir custos”, orienta.
A médica Carine Barreto, CEO da Symetria Cirurgia Plástica, em Aracaju (SE), compartilha da mesma opinião. Graduada pela UNIFESO-RJ, com residência em Cirurgia Geral pelo HMSA-RJ e em Cirurgia Plástica pelo HCE-RJ, ela é titulada pela SBCP, habilitada em próteses R24R, mastopexia com Mastogrip e abordagem Preservé, certificada pelo CELIP e professora de Medicina na UNIT (SE).
“A cirurgia plástica envolve riscos que vão muito além do resultado estético. Quando um procedimento é realizado em uma clínica sem licença sanitária ou sem a estrutura necessária, o paciente pode estar exposto a complicações como infecções graves, hemorragias, tromboembolismo e dificuldades no atendimento de emergências. A ausência de equipamentos adequados, de uma equipe habilitada e de suporte hospitalar pode comprometer diretamente a segurança do paciente caso ocorra alguma intercorrência”.
Ela também fala a respeito da precificação. “Um preço muito abaixo do mercado merece atenção, porque pode refletir cortes em etapas essenciais para a segurança, como exames pré-operatórios, materiais adequados, acompanhamento anestésico ou estrutura de recuperação. Isso não significa que o preço, isoladamente, determine a qualidade de um serviço, mas a decisão não deve ser baseada apenas no valor. É fundamental verificar a qualificação do cirurgião, a regularidade do estabelecimento e se o local dispõe de recursos para atender possíveis complicações. Na cirurgia plástica, a segurança precisa ser prioridade desde a indicação até o pós-operatório”, finaliza.
A busca pela perfeição, que nunca existirá, também tem a ver com as redes sociais, onde muitos homens e mulheres usam filtros para se sentirem mais atraentes, e algumas pessoas acreditam que, ao se submeterem a uma cirurgia, ficarão mais bonitas para si mesmas e para os seus pares. De acordo com Ruiz, as redes sociais têm um papel ambivalente.
“Por um lado, ampliam o acesso à informação e permitem que os pacientes conheçam procedimentos, tirem dúvidas e encontrem profissionais qualificados. Por outro, a exposição constante a corpos idealizados, resultados selecionados e transformações apresentadas de maneira simplificada pode criar a falsa impressão de que uma cirurgia plástica é um procedimento rápido, previsível e livre de riscos”, diz.
Ela acrescenta que um dos problemas surge quando a comunicação nas redes sociais transforma a cirurgia em produto de consumo, estimulando decisões impulsivas e criando expectativas que nem sempre correspondem à realidade. “Cada organismo responde de uma maneira, e o resultado depende de fatores como anatomia, condições de saúde, características da pele e processo de cicatrização. Uma fotografia, por si só, não mostra todo o percurso de uma cirurgia, incluindo as dificuldades e o período de recuperação”, avalia. As informações são do jornal O Dia.
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