Quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 15 de dezembro de 2017
Os pesquisadores estão em busca dos destroços de navios negreiros que afundaram enquanto transportavam homens, mulheres e crianças africanas que seriam escravizadas nas Américas. Uma equipe de arqueólogos mergulha em busca desse pedaço da história no Senegal. Eles esperam identificar os navios naufragados com base nos poucos registros da época e em arquivos.
Estima-se que milhares de pessoas foram mandadas da África para serem escravizadas nas Américas, em especial no Brasil, entre os séculos XVI e XIX. O professor responsável pelo projeto acredita que a pesquisa vai ajudar a entender melhor a história da África. “As travessias do Atlântico ainda são um ponto obscuro da história, e não foram bem documentadas”, afirma Ibrahima Thiaw, diz o arqueólogo da Universidade de Dakar.
“É importante aprender mais sobre esse período, porque o cordão umbilical entre a diáspora e a África foi cortado”, completa. O projeto começou há três anos. E os participantes contam que, no início, não foi fácil.
No barco usado pela equipe para os mergulhos, Aïcha Kamite, estudante de arqueologia e integrante do projeto, diz que no início nem nadar sabia. “Nosso primeiro ano foi muito difícil para a equipe”, relata.
Exposição retraça escombros de navios negreiros em Nova York
Numa vitrine da Quinta Avenida, plantas e flores crescem num canteiro iluminado por fortes luzes artificiais. Os tons de verde misturados ali, quebrados por um rosa ou lilás, dão um ar de refúgio tropical a essa galeria no meio da metrópole, onde os termômetros começam, nessa época, a marcar temperaturas abaixo de zero. Mas esse é um calor violento.
As plantas agora nessa exposição da New School, a famosa faculdade de arte e design no sul da ilha de Manhattan, não são espécimes exóticos à venda numa floricultura estilo butique dessas que se alastram por todo o bairro do Village. Elas são as ervas daninhas de séculos de colonização e tráfico de escravos.
Maria Thereza Alves, uma artista brasileira radicada em Berlim que está entre os nomes mais relevantes no cenário global, passou os últimos anos cavando zonas portuárias em todo o planeta atrás da flora que brotou das sementes do lastro dos navios. Todas as embarcações, para se estabilizarem em alto mar, saindo às vezes carregadas de escravos para voltarem vazias ao porto de origem, levavam como parte de sua carga camadas de pedras, areia, terra e restos de madeira, tudo que era descartado no lugar de onde zarpavam. Esse lastro não raro vinha coalhado de sementes que só brotariam depois, dando origem a estranhos jardins tropicais em terras gélidas ou o contrário, criando um esquema de colonização involuntário que se manifesta não por guerras ou pela imposição de bandeiras, mas por flores e arbustos insuspeitáveis.
Maria, mesmo antes de se tornar uma especialista na chamada flora de lastro, já usava uma dessas folhas em saladas que gosta de fazer. Mas o gosto mudou depois que toda a história dessas plantas que ainda sobrevivem em canteiros largados pela cidade entrou em foco. “Essa terra é violenta. Nunca usei metáforas no meu trabalho, mas pensei nas sementes como testemunhas de um complexo mercado de compras e vendas”, diz, mostrando uma das aquarelas da exposição em que detalhou camadas de lastro no porão de um navio negreiro. “É areia do Caribe, coral, areia vulcânica. Os escravos eram levados primeiro para essas ilhas e depois eram trazidos a Nova York. A terra aqui não é daqui. Você nunca sabe onde está pisando.”
Muitos nova-iorquinos, de fato, não devem suspeitar que longos trechos do endinheirado Upper East Side estão assentados num aterro formado pelo lastro de navios que despejavam sua carga na cidade ao longo de séculos. Outro ponto, mais ao sul do lado leste de Manhattan, foi construído sobre os escombros da cidade de Bristol, no Reino Unido, arrasada por bombardeios durante a Segunda Guerra – os navios americanos que levaram armas às tropas voltaram carregados do fruto dessa destruição para criar uma praça e parte de uma via expressa.
Uma aquarela também na mostra, aliás, esquadrinha a fundo essa anatomia da terra nova-iorquina. Rotas indicadas ali mostram navios vindos de pontos distantes, como o Rio, Moçambique, Argélia, Barcelona e Liverpool. “O que me interessa é sempre a história de um lugar. Estou falando de um processo de colonização da terra”, diz.
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