Sábado, 31 de janeiro de 2026
Por Redação O Sul | 30 de janeiro de 2026
Que as canetas emagrecedoras estão em alta você já sabe! Mas o que muita gente não imagina é que elas podem atrapalhar o funcionamento da pílula anticoncepcional.
O tema ganhou repercussão nas redes sociais após a ex-BBB Laís Caldas anunciar, em dezembro, que engravidou durante o uso combinado de Mounjaro e anticoncepcional oral. O episódio chamou atenção para um ponto pouco discutido: a possível interação entre as canetas emagrecedoras e diversos medicamentos tomados em comprimidos, não apenas os contraceptivos.
Estudos mostram que algumas opções disponíveis no mercado podem reduzir o pico hormonal da pílula em até 66% e diminuir em até 23% a quantidade total absorvida do medicamento, uma queda significativa o bastante para acender um alerta real sobre a eficácia do método oral contra a concepção.
Especialista em menopausa, terapia hormonal, emagrecimento feminino e lipedema, o médico ginecologista Rafael Lazarotto conta que as canetas emagrecedoras podem, sim, interferir na eficácia do anticoncepcional oral, mas destaca que isso varia conforme a molécula. O principal motivo é o retardamento do esvaziamento do estômago.
Ele ressalta que a tirzepatida, presente em medicamentos como Mounjaro e Zepbound, é a substância que mais levanta insegurança nesse cenário, já que pode reduzir de forma significativa a absorção da pílula, o que faz com que o pico do hormônio no sangue caia drasticamente.
“Os estudos mostram uma redução de 55 a 66% no pico hormonal e de 16 a 23% no total absorvido. Isso significa que o corpo recebe menos hormônio do que deveria, e isso pode comprometer a proteção”, afirma.
De acordo com o Eduardo Lima, professor colaborador da Faculdade de Medicina da USP, ainda não há evidências robustas de que a semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, produza o mesmo efeito de forma clinicamente relevante. Segundo o endocrinologista André Camara de Oliveira, da Sbem-SP (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia em São Paulo), apesar de teoricamente possível, estudos clínicos até agora não demonstraram uma relação.
“Ele chega mais devagar, mas chega inteiro. Por isso, não há evidência de impacto na eficácia contraceptiva, ou seja, não há impacto conhecido na proteção”, completa Lazarotto.
Há outros medicamentos da mesma finalidade, como a liraglutida, exenatida e dulaglutida, que podem até atrasar a absorção da pílula, mas não demonstraram comprometer sua eficácia.
Recomendação
Ilza Maria Monteiro, presidente da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da Febrasgo, afirma que uma revisão com seis estudos envolvendo usuárias de contraceptivos hormonais orais e drogas agonistas do GLP-1 não encontrou interação entre semaglutida ou liraglutida e os contraceptivos. Entre as usuárias de tirzepatida, porém, observou-se uma redução clinicamente relevante nas concentrações dos hormônios contraceptivos.
Outro ponto de atenção é que usuárias de agonistas do GLP-1 podem apresentar efeitos adversos como vômitos e diarreia, especialmente no início do tratamento, o que também pode comprometer a eficácia das pílulas anticoncepcionais e, eventualmente, de outros medicamentos orais.
Além da possível interferência na absorção dos anticoncepcionais, a perda de peso associada ao uso dessas medicações pode melhorar indiretamente a fertilidade, sobretudo em mulheres com obesidade ou síndrome dos ovários policísticos. A redução da resistência à insulina, da inflamação sistêmica e da concentração de testosterona no corpo tende a favorecer ciclos mais regulares e a ovulação, o que pode facilitar uma gestação não planejada.
“A Febrasgo recomenda o uso de métodos altamente efetivos, porque ainda não se conhecem plenamente os efeitos dessas drogas em uma possível gravidez. Por essa razão, recomenda-se a suspensão antes de engravidar”, afirma Ilza.
Lima acrescenta que estudos em modelos animais indicam que esses medicamentos podem afetar o crescimento do feto. Por isso, a orientação é suspender o uso imediatamente em caso de gravidez. Para gestações planejadas, a recomendação é interromper o tratamento de um a dois meses antes, sempre com acompanhamento médico. (Com informações da Folha de S. Paulo e GShow)