Sexta-feira, 03 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 3 de julho de 2026
Em um Estado que já acumula 42 feminicídios desde o início do ano (16% a mais que ao no mesmo período de 2025), ampliar os debates sobre prevenção da violência contra as mulheres é uma das estratégias de autoridades e especialistas no desafio de conter a escalada desse tipo de crime. Dentre as iniciativas está um ciclo de palestras promovido em 30 municípios gaúchos.
A mais recente edição do evento foi realizada no dia 1º de julho, para um público formado por 50 jovens aprendizes que participam do programa estadual “Partiu Futuro – Reconstrução” em Porto Alegre e Região Metropolitana. Reunidos em uma sala no Parque Científico e Tecnológico da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Tecnopuc), eles conversaram com a extensionista Lara Werner, do programa “Clínica Feminista Antirracista Interseccional” da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Na pauta, a reflexão sobre os direitos femininos, a identicação e enfrentamento das diversas formas de violência de gênero, sob a lógica do rompimento do ciclos de naturalização de comportamentos abusivos. Um dos objetivos é estimular a atuação dos adolescentes e jovens como agentes de transformação em suas próprias comunidades, considerando-se as suas particularidades.
“Muitos têm uma história para contar de alguém próximo que sofreu ou sofre algum tipo de violência”, ressalta a palestrante. “Estamos vivendo uma realidade grave de crimes contra as mulheres, portanto precisamos disputar a consciência desses jovens para construir uma sociedade baseada em respeito e igualdade, sem naturalizar essas situações.”
Ainda de acordo com a palesrante, levar esse debate para a adolescência e a juventude tem o poder de ampliar a compreensão sobre o impacto da violência na sociedade: “É fundamental mostrar que a violência contra a mulher impacta toda a população, além de falar sobre equidade de gênero, a importância das mulheres e como identificar sinais de relações abusivas”.
Ela acrescenta que o conhecimento é uma ferramenta para criação de redes de proteção: “A construção de ambientes protegidos passa pelo diálogo. Os jovens precisam saber que há espaços seguros e adultos responsáveis para acolher e orientar, assim também se tornam agentes importantes no território, capazes de identificar situações de violência e encaminhar essas demandas”.
Intitulado “Diálogos que Protegem – Vozes pela Vida: Juventude, Respeito e Cultura da Paz”, o ciclo de debates é promovido pela Rede Nacional de Aprendizagem (Renapsi), instituição sem fins lucrativos e focada na inclusão social e profissional de adolescentes e jovens. Sua atuação serve de ponte entre esse segmento populacional, empresas e órgãos públicos, oferecendo vagas por meio do programa “Jovem Aprendiz”.
Com a palavra, a “gurizada”
Para Kauê Viana de Souza, 18 anos e residente em Viamão, discutir o tema é uma forma de fortalecer a solidariedade: “É muito importante conversarmos a respeito e termos empatia nesse momento, porque se eu tenho uma história triste e outra pessoa também, não quero que aconteça a mesma coisa que aconteceu comigo ou com ela. É preciso demonstrar que estamos prontos para ajudar quem necessita”.
Da mesma cidade e com 21 anos, Lavínia Fagundes Rodrigues ressalta que o diálogo é essencial para superar o receio e incentivar a busca por ajuda: “É um assunto relevante a ser debatido para enfrentarmos o medo da violência doméstica e mostrar que as mulheres, ou quem presenciar uma situação desse tipo, não devem ter receio de denunciar o agressor porque a vítima receberá proteção das autoridades. Podemos ajudar, seja por meio de uma conversa com essa pessoa, sendo ela próxima ou não”.
“Partiu Futuro – Reconstrução”
Ao todo, 2.785 jovens de 75 municípios gaúchos participam da segunda edição do programa “Partiu Futuro – Reconstrução”, desenvolvido pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social (Sedes). Desse contingente, 1.840 são atendidos em 31 municípios pela Demà Aprendiz, tecnologia social da Renapsi.
A iniciativa é voltada a pessoas com idade entre 14 e 22 anos, egressas ou matriculadas na rede pública de ensino, inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) e que foram impactadas pelas enchentes de maio de 2024 ou residem em municípios integrados ao programa “RS Seguro”, do governo gaúcho. O contrato tem duração de um ano e prevê carga horária total de 1.040 horas.
Os participantes recebem bolsa-auxílio de R$ 894 para jornada de 20 horas semanais, além de vale-alimentação de R$ 550 e, quando necessário, vale-transporte. Também contam com carteira assinada e acesso a todos os direitos garantidos por lei, como FGTS, INSS, férias e 13º salário.
Cabe à Demà Aprendiz a coordenação da capacitação teórica e o acompanhamento das atividades realizadas em órgãos públicos, aliando a aprendizagem profissional ao desenvolvimento integral dos participantes para a qualificação no mundo do trabalho. Os jovens conciliam formação teórica à atuação em órgãos estaduais e municipais, onde atuam quatro dias por semana.
(Marcello Campos)
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