Domingo, 20 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 6 de julho de 2015
Doces despertam desejos compulsivos, mas não é o sabor que alimenta a gula. E, sim, uma vontade maior do que a razão. Biológica e poderosa ao ponto de se transformar em vício. O cérebro tem compulsão pela quantidade de calorias, e não pelo gosto doce.
Este seria o motivo de adoçantes não despertarem o mesmo apetite que o açúcar comum, por mais que seu sabor procure se aproximar do sabor do outro. O que conta não é o gosto, mas a quantidade de calorias. A tese é defendida pelo grupo do neurocientista Ivan de Araújo, que investiga como alimentos calóricos estimulam os centros de recompensa do cérebro.
Professor dos departamentos de Psiquiatria e de Fisiologia da Universidade de Yale, nos EUA, Araújo procura explicações para a epidemia global de obesidade. Suas pesquisas estão entre os destaques do IX Congresso Mundial da Organização Internacional de Pesquisa do Cérebro (Ibro 2015).
“Mesmo sem perceber, buscamos calorias”, afirma o pesquisador, que chefia o programa de Neurobiologia da Alimentação do Laboratório John B. Pierce, também de Yale.
Acumular calorias para o cérebro significa ter energia suficiente para coisas básicas, como a fertilidade e a reprodução. Calorias são energia e o corpo humano possui um sistema complexo, resultado da seleção natural. Seu papel é acumular a energia dos alimentos. A falta de comida acompanhou a Humanidade por milhares de anos. A abundância de alimentos é recente, insignificante em termos evolutivos.
“O resultado é que temos corpos não adaptados à vida contemporânea, em que a comida é abundante e extremamente calórica. Há todo um sistema biológico preparado para captar calorias. Ele surgiu porque na natureza a comida é escassa. Nosso estilo de vida mudou, mas o sistema continua lá”, salienta Araújo.
O cientista e seu grupo descobriram que o açúcar ativa uma região do duodeno (parte do intestino delgado) que envia sinais específicos ao cérebro. O duodeno comunica aos centros de recompensa do cérebro – que nos proporcionam sentir prazer e saciedade – que um alimento é calórico. Os pesquisadores também descobriram que o cérebro tem um grupo específico de neurônios sensíveis ao açúcar. Ingerir açúcar deflagra a liberação de dopamina, que dá a sensação de prazer e faz com que desejemos mais doces. É por isso que eles provocam satisfação. Quanto mais comemos, menos sensível o sistema se torna e mais açúcar é necessário para liberar dopamina.
O cérebro de uma pessoa que engorda funciona como o de dependentes em uma droga qualquer, que precisa cada vez mais desta para obter o mesmo prazer. Um ciclo vicioso que, para Araújo, só pode ser quebrado com reeducação alimentar. E, nos casos extremos, de obesidade severa, cirurgias bariátricas que reduzam o duodeno.
“Assim, menos calorias seriam captadas, e a pessoa mudaria o comportamento e passaria a querer menos alimentos engordativos”, diz o cientista.
Ele começou o estudo com camundongos transgênicos modificados para não perceberem o sabor doce. Os camundongos que não sentem o gosto do doce, porém, são tão loucos por açúcar quanto os roedores comuns. E não se deixam enganar por adoçantes, ignoram o produto como o fazem com alimentos menos calóricos.
O grupo de Araújo observou que, se é dado um alimento de baixa caloria a um animal obeso, ele o ignora. Já o roedor magro come. O obeso só vai comer o não calórico quando passar muito tempo sem comida. Outra descoberta foi a de que carboidratos e açúcares em forma líquida ou cremosa são muito mais engordativos e viciantes. “O líquido é absorvido quase que imediatamente. Provoca uma resposta cerebral mais potente”, completa. (AG)
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