Terça-feira, 12 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 11 de maio de 2026
O surto mortal de hantavírus a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius colocou os holofotes sobre um patógeno raro que normalmente recebe relativamente pouca atenção, até mesmo da comunidade científica. Hoje, não existem tratamentos direcionados para hantavírus, geralmente transmitidos por roedores, nem vacinas amplamente disponíveis. Assim, quando passageiros começaram a adoecer no meio do Oceano Atlântico, médicos e especialistas em saúde pública tinham opções limitadas para oferecer.
“É uma espécie de alerta. Nossa caixa de ferramentas é praticamente vazia”, diz Vaithi Arumugaswami, pesquisador de doenças infecciosas da University of California, em Los Angeles, nos Estados Unidos.
Isso não ocorre por falta de tentativas. Diversas equipes científicas ao redor do mundo trabalham — em alguns casos há décadas — para desenvolver tratamentos e vacinas contra hantavírus. Mas não tem sido fácil obter financiamento ou despertar interesse comercial em intervenções médicas para um tipo de patógeno que infecta humanos raramente e não se espalha facilmente entre pessoas.
“Não é uma ameaça viral aérea e altamente contagiosa, então não recebeu tanta prioridade entre grupos que tentam prevenir pandemias”, afirma Jay Hooper, especialista em vírus do Instituto Médico de Pesquisa em Doenças Infecciosas do Exército Americano.
Mas há vacinas e tratamentos promissores em desenvolvimento. E alguns deles, segundo especialistas, poderiam avançar rapidamente se intervenções contra hantavírus se tornassem prioridade.
“Acho que existem coisas prontas no laboratório que poderiam ser desenvolvidas rapidamente. Mas nada está pronto”, diz Ronald Nahass, presidente da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas.
Desenvolvimento de vacinas
Existem dois principais tipos de hantavírus: os vírus do Velho Mundo, que circulam principalmente na Ásia e na Europa, e os vírus do Novo Mundo, encontrados nas Américas. O surto no cruzeiro foi associado ao vírus Andes, um vírus do Novo Mundo endêmico da América do Sul e o único hantavírus conhecido por se transmitir entre pessoas.
Existem vacinas voltadas para alguns vírus do Velho Mundo na Ásia, mas sua eficácia é modesta, segundo especialistas. E não há vacinas licenciadas para os vírus do Novo Mundo, que incluem o vírus Sin Nombre, endêmico em roedores do oeste dos Estados Unidos.
Mas algumas estão em desenvolvimento. Hooper e seus colegas desenvolveram uma vacina de DNA para o vírus Andes, que mostrou resultados promissores em um pequeno estudo de fase 1. Em determinados esquemas de dose, os pesquisadores descobriram que mais de 80% dos participantes produziram anticorpos neutralizantes.
“É bastante impressionante. Conseguir esse tipo de anticorpo neutralizante em humanos é impressionante”, diz Hooper, inventor em múltiplas patentes de vacinas contra hantavírus pertencentes ao governo dos EUA.
Havia desvantagens, incluindo o fato de que a vacina parecia exigir pelo menos três doses. Mas ela está pronta para avançar “se houver necessidade”, afirma Hooper: “Já fizemos a ciência. O que falta são outras forças necessárias para levar vacinas adiante, como mercado, demanda governamental.”
Outras equipes têm vacinas potenciais em estágios mais iniciais de desenvolvimento. Por exemplo, Bryce Warner, pesquisador da University of Saskatchewan, no Canadá, e seus colegas exploram várias abordagens, incluindo uma vacina nasal que eles esperam que provoque uma resposta imunológica mais robusta nas vias aéreas.
Mas a pesquisa, conduzida em hamsters, ainda está em estágios iniciais, e candidatos a vacinas contra hantavírus podem ser difíceis de desenvolver. Cientistas não dispõem de bons modelos animais de grande porte para hantavírus, diz Warner, e os casos humanos são raros o suficiente para dificultar ensaios clínicos.
“É muito difícil conduzir um estudo clínico quando você só tem um número limitado de casos anuais. Não há pessoas suficientes para realmente demonstrar um efeito robusto”, diz.
Atualmente, o principal tratamento para infecção por hantavírus é o suporte clínico, que pode incluir oxigênio suplementar ou máquinas de circulação extracorpórea. Médicos também às vezes prescrevem um antiviral já existente, chamado Ribavirin, mas não há evidências fortes de que ele seja eficaz contra vírus do Novo Mundo, disseram cientistas.
A busca por novos medicamentos, porém, está em andamento. Na UCLA, Arumugaswami e colegas descobriram que o Favipiravir, antiviral aprovado para tratar gripe no Japão, inibiu o vírus Andes em células humanas. Eles também identificaram vários compostos com atividade antiviral ampla, capazes de bloquear hantavírus e outros tipos de vírus em organoides humanos — pequenos agrupamentos de tecido que imitam o funcionamento de órgãos.
Outras equipes vêm trabalhando para desenvolver tratamentos com anticorpos terapêuticos, frequentemente utilizando amostras de sangue coletadas de sobreviventes de hantavírus.
“Conseguimos isolar os anticorpos naturais que as pessoas produzem e basicamente refiná-los até encontrar um realmente muito bom. Na verdade encontramos vários”, afirma Kartik Chandran, especialista em vírus do Albert Einstein College of Medicine. As informações são do jornal The New York Times.
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