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Cultura Com a Broadway às escuras e Londres em silêncio, a Austrália vira centro cultural do mundo

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O Capitol Theatre, em Sydney, está apresentando o musical “Frozen”. (Foto: Reprodução/Twitter)

As luzes se apagam. O público está devidamente mascarado e uma barreira de acrílico isola a orquestra. Jemma Rix, toda de azul real e com um cetro higienizado nas mãos, na pele de Elsa, surge para receber os membros da família “Frozen” – sua corajosa irmã Anna, o belo príncipe Hans e a estoica rena Sven, todos com o exame de Covid-19 feito, caprichando na letra já tão conhecida, que agora adquirira um novo significado. “Pela primeira vez na eternidade, não há nada no meu caminhooooo!”, cantam.

A plateia irrompe em aplausos, não só para o elenco, mas para o retorno dos atores ao palco e as pessoas, às poltronas. Num momento em que os teatros de Nova York (EUA) e Londres (Reino Unido) continuam às escuras, os palcos australianos estão (cuidadosamente) iluminados – “Come From Away” e “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada” reestrearam em Melbourne, “Moulin Rouge! The Musical” se prepara para a estreia na cidade até o fim do ano, e “Hamilton” deve disputar o público com “Frozen” em Sydney.

A Austrália, normalmente um mercado secundário para os megashows criados em Nova York e Londres, tornou-se uma pioneira inesperada nesta pandemia, no papel de modelo e termômetro para o setor teatral global. Hoje, os produtores da Broadway e do West End observam a recuperação da Austrália com inveja e esperança.

“É meio como viver no futuro”, confessa Thomas Schumacher, presidente da Disney Produções Teatrais, que passou seis semanas em Sydney – das quais duas ficou quarentenado em um quarto de hotel – para a estreia de “Frozen”. Com a Disney planejando estrear 24 espetáculos em quatro continentes este ano, incluindo “O Rei Leão” e “Aladim” na Broadway, Schumacher vê o país como precursor.

Muita coisa mudou: em alguns teatros, os atores são recebidos por robôs que medem a temperatura. Na chegada, todos os espectadores têm de escanear um código QR de rastreamento de contato; a entrada é escalonada, de modo que o público possa se acomodar por fileiras. Depois dos aplausos finais, os atores evitam as já familiares sessões de selfies com os fãs à porta do camarim.

Mas o fato é que a energia visceral do teatro está de volta. Jeffrey Seller, produtor de “Hamilton”, que no momento está em quarentena em Sydney, aguardando liberação para acompanhar os ensaios de seu espetáculo, confessa-se ansioso com a perspectiva de ver os atores no palco. Ele torce para que a versão australiana seja a primeira das sete montagens da peça a estrear este ano. “Tenho a sensação de ser Dorothy a caminho de Oz: finalmente, o mundo inteiro voltou a ter cor”, diz.

De longe, a Austrália tem tido muito mais sucesso na contenção do vírus do que os EUA e o Reino Unido, basicamente por ter adotado protocolos rígidos de segurança e porque a população seguiu as determinações de saúde pública. As diferenças são gritantes: segundo a base de dados do The New York Times, durante a última semana de fevereiro a média diária do país era menor que um caso para cada 100 mil pessoas, enquanto entre os britânicos era de 15 e os norte-americanos, 21. Os números absolutos são ainda mais reveladores: enquanto na Austrália o número de novos casos diários se limita a seis, nos EUA chega a 69.483.

Agora, os produtores britânicos e norte-americanos estão parados, esperando que as campanhas de vacinação em seus respectivos países deslanchem. No West End, a expectativa é que alguns espetáculos voltem nos próximos meses; na Broadway, só no segundo semestre. Na Austrália, o teatro voltou à ativa muito antes do início da imunização.

Os sinais até agora são positivos: a venda de ingressos é robusta, sugerindo que os fãs estão ansiosos pelo retorno e dispostos a gastar. “A espera foi longa e a demanda é garantida, ou seja, está funcionando superbem”, diz Carmen Pavlovic, principal produtora de “Moulin Rouge!”.

O sucesso inicial já está atraindo mais espetáculos. Os produtores de “Jagged Little Pill”, musical baseado nas canções de Alanis Morissette que esteve em cartaz na Broadway por três meses antes do confinamento, admitem que estão de olho na Austrália enquanto planejam sua primeira incursão internacional.

O movimento começou a ganhar embalo desde que o setor teatral australiano passou a defender a retomada das atividades, em junho passado. Algumas produções inclusive receberam incentivos públicos. A indústria, em parceria com pesquisadores e especialistas, criou um plano próprio de segurança nacional contra o coronavírus para convencer as autoridades de que os teatros em funcionamento, como um todo, não agravariam a pandemia.

No palco, a ação permanece inalterada pelo vírus. Em “Frozen”, Elsa ainda consegue criar um palácio de gelo durante “Let It Go”, ainda que graças a um esforço extra e inesperado de engenharia, depois que o teatro reconfigurou o sistema de ar-condicionado como medida de controle de contaminação. E quem diria que a troca de ar mais forte geraria um caos na neblina do palco? O efeito especial teve de ser recalibrado. As informações são do jornal The New York Times.

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