Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 31 de janeiro de 2018
De dentro da sufocante cabine de um caminhão, Carlos Del Pino presenciou como um de seus colegas foi interceptado no meio de uma rua por cerca de 20 pessoas, algumas delas armadas, que o obrigaram a parar o veículo cheio de milho a granel para saqueá-lo.
Este foi mais um episódio na crescente onda de ataques a comércios, fazendas de gado e veículos de transporte de carga carregados com qualquer produto que estremece a Venezuela nas últimas semanas.
“Foi uma coisa de (filme) de terror”, disse Del Pino ao lembrar dos momentos de angústia que viveu. Caminhoneiro há 14 anos, ele diz que em um mês bom consegue ganhar o equivalente a US$ 100, o que é suficiente para manter sua mulher e as duas filhas do casal.
Apesar de temer por situações como a que presenciou, Del Pino diz que entende o desespero de seus compatriotas em razão da grave escassez de alimentos e da inflação galopante que atinge o país e, segundo estimativas do FMI, pode chegar a 13.000% neste ano.
“Eles têm que saquear para comer”, afirmou. Os saques esporádicos e os protestos por falta de alimento, realizados por pobres que passam fome, aumentaram vertiginosamente nas últimas semanas na Venezuela, país onde os tumultos se tornam cada vez mais comuns.
Estes atos recentes, no entanto, foram protagonizados por um público diferente do que participou da onda de protesto no primeiro semestre do ano passado com o objetivo de tirar o presidente Nicolás Maduro do poder – naquela ocasião, as manifestações eram organizadas principalmente pela classe média venezuelana.
“Estes protestos são feitos por pessoas das classes mais baixas que simplesmente não têm dinheiro para comer”, diz David Smilde, pesquisador sênior da ONG WOLA (Washington Office on Latin America), que estuda o país há décadas. “Eles querem alívio, mas não necessariamente para forçar a saída de Maduro.”
Nas duas primeiras semanas deste ano foram registradas aproximadamente 110 ocorrências de saques a comércios e caminhoneiros, superando em mais de cinco vezes os registros de janeiro de 2017 – os incidentes violentos nas primeiras semanas de 2018 deixaram ao menos cinco mortos.
Este total de ocorrências também supera amplamente os dados de relatórios para o mesmo tipo de crime nos meses de janeiro entre 2014 e 2016, segundo o OVCS (Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais).
O salto da cifra de saques causou inquietação entre opositores e pesquisadores, como Marco Antonio Ponce, diretos do OVCS. Segundo ele, os ataques contra as propriedades já não se concentram nas grandes cidades e se estenderam também para pequenos povoados e estradas vicinais de todo o país.
Em meio à crise, as centenas de estradas que atravessam o país de um extremo ao outro se transformaram no lugar favorito para que povoados inteiros e grupos de delinquentes saqueiem a carga de veículos que se acidentam ou sofrem algum tipo de pane.
De dezembro a janeiro, foram reportados ao menos quatro incidentes diários de caminhoneiros que foram assaltados ou saqueados em estradas, disse Emidio Palumbo, presidente da Câmara de Transporte Pesado do Estado Costeiro de Vargas.
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