Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 7 de fevereiro de 2019
As filas nas portas de hospitais e consultórios médicos, além da dificuldade para encontrar um médico especialista em regiões remotas, podem ser reduzidas; telas, robôs e equipamentos podem se proliferar ainda mais em centros de saúde pelo País. A mudança poderá ser proporcionada por uma nova resolução do CFM (Conselho Federal de Medicina) , que deverá ser publicada nesta semana e define os usos, potenciais e limites da telemedicina — como consulta de pacientes a médicos em tempo real e a distância.
Donizetti Giamberardino, coordenador da Comissão Nacional Pró-SUS do CFM, afirma que a nova resolução substituirá e modernizará outra, escrita em 2002, quando a tecnologia e as formas de comunicação interpessoal, incluindo entre médico e paciente, eram outras. Tais mudanças, segundo ele, ocorreram em um ritmo acelerado e não disciplinado.
“A nova resolução ordena o uso dessa forma de comunicação para a medicina, adequando-a às novas tecnologias. Serve para aumentar a segurança do paciente, e não substituir uma consulta presencial do médico. É, portanto, uma ferramenta complementar, ampliando o acesso às populações remotas”, detalha Giamberardino.
A regulamentação, afirma o coordenador do CFM, deve formalizar consultas que eram feitas por pacientes a médicos em redes como o WhatsApp ou o Facetime. Dessa forma, todo atendimento on-line deverá ser concentrado em um sistema que registrará o histórico do paciente.
“Todo atendimento precisará ser registrado, com o prontuário eletrônico entregue ao paciente. Esse documento será confidencial. Trata-se de uma forma de proteção ao paciente que não existe nestas redes sociais”, adverte o médico, que enfatiza que as consultas não poderão ser feitas por estes aplicativos.
Giamberardino diz valorizar a consulta presencial, que ajuda a construir uma relação entre o paciente e o profissional. De acordo com o novo documento, o profissional de saúde deve julgar se é necessário analisar o paciente via telemedicina — portanto, a distância — ou em uma consulta. Da mesma forma, o indivíduo tem o direito de dizer se quer ou não ter um atendimento remoto.
Para Antonio Carlos Endrigo, diretor de Tecnologia da Informação da Associação Paulista de Medicina, a resolução representa um grande avanço, principalmente em relação à teleconsulta.
“Uma vantagem imediata é o aumento do acesso ao médico pelos pacientes”, avalia.”É possível que os profissionais mais antigos sejam contrários a essa tecnologia e critiquem a perda de contato físico com o paciente. Mas existem alguns sinais e sintomas que são claros e permitem um diagnóstico com certa precisão, principalmente em áreas como oftalmologia.”
Como a consulta a distância, mediada pela tecnologia, é uma prática nova, Endrigo ressalta que será preciso um período de adaptação para os médicos e profissionais de saúde. Até que a resolução entre em vigor, provavelmente em maio, será preciso discutir os limites da telemedicina e a responsabilidade para a preservação da segurança do paciente, entre outros temas.
Endrigo ressalta que a telemedicina pode apresentar bons resultados em áreas como dermatologia, radiologia, otorrinolaringologia e algumas fases da pediatria — não as primeiras, que demandam acompanhamento presencial para questões como medir a criança. Médicos da família que já tiveram contato presencial com seus pacientes, diz Endrigo, também poderão atender a um número maior de pessoas a partir da teleconsulta.
Primeiros entraves
Para Endrigo, um dos primeiros entraves para a implementação da telemedicina e das regras anunciadas é a questão tecnológica. “Está prevista a gravação de consultas e o envio do prontuário ao paciente. Não sei se os sistemas estarão preparados para isso no tempo previsto de três meses (tempo até que a norma entre em vigor)”, admite. “Muitos médicos ainda não usam prontuários eletrônicos. No caso de uma teleconsulta, o médico pode emitir um pedido de exame, uma prescrição eletrônica. E como as farmácias vão receber isso? O mercado ainda não está preparado, mas temos que correr atrás.”
Presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, Sidney Klajner reforça que a telemedicina pode evitar gastos desnecessários e otimizar recursos.
“Poderemos superar barreiras de acesso vistas em um país com nossas dimensões”, revela. “A tecnologia pode contribuir para que profissionais extremamente especializados troquem opiniões com outros generalistas. Falta, no entanto, qualificar os médicos e atualizar currículo do ensino superior. Muitas universidades ignoram os processos digitais que estão cada vez mais presentes na medicina.”
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