Quinta-feira, 03 de abril de 2025
Por Redação O Sul | 1 de junho de 2024
Momentos depois de tornar-se o primeiro ex-presidente americano a ser condenado por um crime, ainda nas dependências de um tribunal em Nova York, Donald Trump declarou que o veredito será dado pelo povo em 5 de novembro, dia da eleição americana. Trump é conhecido por proferir mentiras em série, mas até o mais inflamado de seus críticos será obrigado a concordar que desta vez falou uma verdade: apenas as urnas terão o condão de decidir seu destino — e o de todo o país.
Os Estados Unidos não contam com lei semelhante à da Ficha Limpa, portanto, mesmo condenado, o nome de Trump estará nas cédulas depois de referendado na convenção republicana de julho. A sentença será proferida também em julho, dias antes da convenção. Como Trump não tem antecedentes criminais, é remota a chance de ser preso. O cenário mais provável é uma multa acompanhada de liberdade condicional. Ainda assim, o ineditismo da situação lança desde já a disputa deste ano em território desconhecido.
O júri de 12 nova-iorquinos considerou Trump culpado nas 34 acusações de ter falsificado registros contábeis para encobrir um escândalo sexual na campanha presidencial em 2016. Havia bons argumentos para que a condenação fosse mais branda. Pela lei de Nova York, a falsificação configura apenas delito. Os jurados só o condenaram por crime depois de convencidos de que a intenção era interferir na eleição de 2016. A defesa não fez muito esforço para livrar Trump da condenação. Para a base trumpista mais aguerrida, a sentença é mais uma prova de “caça às bruxas”. O site para doações à campanha de Trump entrou em colapso tamanha a procura depois da sentença. Sua aposta política é que apresentar-se como vítima da injustiça de um “sistema corrupto” renderá votos.
Faltando cinco meses para a eleição, é cedo para conhecer o impacto dessa estratégia na urna. Mas já ficou claro para onde Biden terá de dirigir suas armas até lá. O foco dos democratas será atrair, nos estados decisivos, eleitores que diziam estar dispostos a reconsiderar o voto em caso de condenação e apresentar-se como alternativa ao caos representado pela volta de Trump à Casa Branca. Nos estados mais críticos — Wisconsin, Michigan e Pensilvânia —, as pesquisas revelam equilíbrio. São os mesmos estados que custaram a derrota a Hillary Clinton em 2016. As próximas semanas permitirão avaliar o efeito das manchetes negativas na candidatura republicana. E os próximos meses, se os democratas aprenderam algo com aquela derrota.
Trump não é apenas um ex-presidente. Tem milhões de apoiadores fiéis, uma máquina eleitoral poderosa e bilhões à disposição para gastar. É acusado de ter conspirado para reverter os resultados da eleição de 2020 e de ter relutado em entregar documentos secretos mantidos após sair do governo. As duas acusações resultaram em processos que não deverão ser julgados até novembro. O caso de Nova York era considerado o menos robusto do ponto de vista jurídico, e os recursos da defesa também só deverão ser julgados depois da eleição. Se Trump vencer, colocará o país diante de questões constitucionais inéditas sobre o alcance da Justiça ante um presidente em exercício (nem a possibilidade de “autoperdão” está descartada). Por todas as implicações possíveis, o julgamento mais crucial para o futuro dos Estados Unidos acontecerá mesmo em novembro. As informações são jornal O Globo.