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Esporte Copa do Mundo de 2030 expõe contradições entre ambição global e desigualdades em Marrocos, um dos anfitriões do evento

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País norte-africano promete para o evento o maior estádio do mundo, (Foto: Arquivo/Fifa)

A Copa do Mundo de 2030 simboliza o ápice da ambição que transformou o futebol em projeto nacional em Marrocos. Coanfitrião do torneio (junto com Portugal, Espanha, Uruguai, Argentina e Paraguai), o país norte-africano conduz um amplo plano de infraestrutura para o evento, estimado em cerca de 14 bilhões de euros (R$ 92 bilhões), conforme documentos da candidatura apresentada à Federação Internacional de Futebol (Fifa).

Antes, a Seleção marroquina tem suas atenções voltadas ao Mundial deste ano, na América do Norte (México, Canadá e Estados Unidos). A equipe será a primeira adversária do Brasil na fase de grupos, com uma participação que já serve de amostra do modelo que combina investimento estatal, ambição internacional e resultados esportivos recentes.

Parte da população do país não está empolgada com a chance de encontrar a Seleção Brasileira nesta Copa ou de sediar o torneio daqui a quatro anos. Para esse segmento, o gastos representam uma inversão de prioridades – rejeição também vista quando o Brasil recebeu as partidas de 2014.

Desde setembro do ano passado, protestos liderados por jovens em cidades como Rabat, Casablanca e Fez criticam o investimento bilionário no torneio e cobram maiores recursos para áreas como saúde e geração de empregos. Dentre os slogans estão “queremos hospitais, não estádios”. Em 2023 havia 7,8 médicos para cada 10 mil marroquinos, número bastante abaixo da recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 23/10.000.

A reação interna contrasta com a estratégia do governo do país norte-africano de transformar o Mundial em instrumento de projeção e reposicionamento da imagem no exterior, por meio do futebol – um dos esportes mais populares do planeta. Sociólogo e pesquisador de políticas sociais da Universidade de Oxford (Inglaterra), Dirk Witteveen contextualiza:

“O acesso ao futebol de elite está fortemente concentrado nos grandes centros urbanos, onde estão a infraestrutura, os treinadores e as redes de observação. Isso cria uma desigualdade geográfica clara: jogadores e cidadãos de regiões periféricas ou rurais enfrentam muito mais barreiras para entrar no sistema econômico”.

O diagnóstico ajuda a explicar por que o crescimento do futebol não se espalha pelo país. De acordo com dados do Banco Mundial, os 20% mais ricos concentram mais de metade da renda em Marrocos, enquanto o desemprego entre jovens supera 20%, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Estádios

Embora Marrocos tenha investido na modernização de centros de treinamento e na profissionalização de sua estrutura esportiva, o acesso às principais oportunidades permanece concentrado. O país incluiu seis estádios em seu plano para receber a Copa, todos em regiões urbanas das principais cidades e cinco já existentes: Príncipe Moulay Abdellah (Rabat), Grand Stade de Tanger (Tânger), Estádio de Fez (Fez), Estádio de Agadir (Agadir) e Estádio de Marrakech (Marrakech).

O sexto, denominado “Hassan II”, está em construção na cidade de Benslimane, a quase 40 quilômetros de Casablanca. Conforme as autoridades nacionais, a arena foi projetada para ser a maior do mundo, com capacidade para 115 mil espectadores. E é o trunfo de Marrocos para tentar tirar a final da Copa do Mundo de 2030 do Santiago Bernabéu (casa do Real Madrid), na Espanha.

Pesquisadores apontam, porém, que a ampliação da infraestrutura se dá em um contexto de pressão sobre recursos básicos. O país enfrenta estresse hídrico severo, em cenário no qual cerca de 80% da água disponível é destinada à agricultura, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Mas o alcance dessa projeção tem limites. “Eventos esportivos produzem janelas de atenção, mas seus efeitos sobre a imagem internacional tendem a ser efêmeros e seletivos”, ressalva a pesquisadora de comunicação Vitória Baldin, da Universidade de São Paulo (USP).

Embora Marrocos tenha registrado crescimento econômico nos últimos anos, os ganhos permanecem concentrados, enquanto parte da população enfrenta dificuldades de acesso a emprego, saúde e educação. Essa distribuição desigual está no centro das críticas recentes. (com informações do jornal Folha de S.Paulo)

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