Sábado, 07 de fevereiro de 2026
Por Redação O Sul | 3 de fevereiro de 2026
Após o recesso parlamentar, os trabalhos da CPI do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) miram as instituições financeiras que assediam aposentados com empréstimo consignado. Se a fraude investigada pela CPI causou indignação por um rombo de R$ 6,3 bilhões em cinco anos, os valores que circulam nos empréstimos são muito maiores. Conforme auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União), em apenas três anos a suspeita de venda casada de empréstimo consignado correspondeu a R$ 219 bilhões.
Embora seja difícil saber os contornos da fraude, seu método e sua abrangência autoral merecem atenção da CPI, sobretudo pelos indícios já conhecidos e pela expressão econômica em que tais transações implicam. Um empréstimo fraudulento pode ser superior a centenas de descontos indevidos.
Recentemente, depois do desgaste de sua imagem institucional, a atual gestão do INSS resolveu correr atrás do prejuízo e tem adotado medidas moralizadoras. Suspendeu convênios e cancelou contratos de bancos por graves irregularidades, como contratos pós-óbito, fraude no consignado, “troco” indevido e taxa abusiva. Por diferentes motivos, Facta Financeira, Banco do Nordeste, Banco Industrial do Brasil, Banco Seguro, C6, Master, Inter, Cobuccio, Paraná Banco, Agibank e Crefisa sofreram alguma sanção.
A Crefisa está suspensa da gestão da folha de pagamento do instituto após o INSS constatar que a empresa oferecia empréstimo pessoal com juros mais altos ao aposentado em vez de consignado.
Esse reconhecimento de irregularidades nos consignados por parte do INSS, por si só, justifica a nova fase da CPI. Precisam ser investigados os meandros e as engrenagens bilionárias que o sistema financeiro aufere com os mais vulneráveis do país.
Outra coisa que é um enigma na administração pública é o vazamento de informações de aposentados. INSS e Dataprev juram de pé juntos que não há vazamento da parte deles. Paradoxalmente, mensalmente os bancos descobrem quem são os novos aposentados e passam a importuná-los, o que é uma prova do vazamento recorrente de dados previdenciários.
O ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, inclusive, confirmou à CPI que houve vazamento de informações em vários andares da autarquia.
O vazamento é a matéria-prima dos crimes, seja para a execução do próprio empréstimo fraudulento ou para o banco localizar o aposentado e tentar persuadi-lo.
O fato de os bancos terem acesso a informações sigilosas dos aposentados é preocupante, pois a partir de um único vazamento se perde o controle de quantas pessoas têm acesso ao dado em si e de quantos crimes podem ser cometidos com as informações.
A CPI também pode conseguir as respostas que o TCU não obteve. A corte, ao investigar a existência de venda casada de empréstimos consignados e descontos de mensalidades associativas e sindicais, trouxe uma justificativa muito frágil: se limitou a dizer que inexistia fraude, pois as associações não divulgam os serviços bancários em seus sites.
É preciso lançar luz e detalhar práticas ilícitas que o sistema bancário eventualmente utilize contra aposentados e analfabetos. Não será tarefa fácil. O STF (Supremo Tribunal Federal) tem poupado testemunhas de falar. Políticos têm impedido que determinadas figuras sejam convocadas a depor.
A CPI já tem engatilhada a convocação de Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Luiz Félix Cardamone Neto, diretor-presidente do BMG.
Se tratando de bancos que representam o poder econômico do país, muitos deles financiadores de campanhas eleitorais, o nível de pressão será ainda maior para que fatos sejam ocultados e depoimentos sejam frustrados.
Espera-se que esse capítulo nebuloso das transações financeiras previdenciárias seja também esclarecido, pois, se isso não for feito agora, o tema possivelmente demorará a ser retomado ou nunca será. Enquanto isso mais aposentados são alvo de instituições financeiras inidôneas. (Rômulo Saraiva/Folhapress)
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