Sábado, 07 de março de 2026
Por Redação O Sul | 6 de março de 2026
A magreza extrema voltou a ganhar espaço no imaginário coletivo, nas redes e offline. Um relatório da Vogue Business mostra que, de quase 9 mil looks apresentados nos desfiles de outono, em 2025, apenas 2% eram de tamanho médio e 0,3%, plus size. Os índices, ainda mais baixos do que os registrados na temporada anterior, reforçam o retorno da magreza como “tendência”.
O crescimento do uso das canetas para obesidade e diabetes é outro exemplo e motiva estudos sobre as consequências. A nutricionista Fernanda Scagliusi é a autora principal de uma dessas pesquisas. Integrante do Grupo de Pesquisa em Alimentação, Corporalidades e Cultura (Gepac) e do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Universidade de São Paulo (CMV/USP), ela diz que a prática “embaralha” a fronteira entre o normal e o patológico. “Quando a motivação (para o uso das canetas) é a magreza, o medicamento deixa de ser um tratamento e passa a funcionar como uma tecnologia de adequação corporal a normas sociais”, analisa.
O índice de massa corporal (IMC) é a referência para identificar alertas. Segundo o endocrinologista Sergio Maeda, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em adultos, um IMC abaixo de 18,5 é considerado baixo peso e pode estar associado a problemas como desnutrição, perda de massa muscular, osteoporose e maior risco de mortalidade.
A preocupação cresce quando a perda de peso ocorre sem acompanhamento profissional ou quando é motivada por distorções de autoimagem, diz Paulo Miranda, coordenador do departamento internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). O emagrecimento pode mascarar transtornos alimentares ou levar à desnutrição. O emagrecimento acelerado pode provocar mudanças importantes no organismo.
Segundo a psicóloga Rogéria Taragano, a valorização social da magreza extrema cria ambiente propício para transtornos alimentares, como bulimia e anorexia. Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), mais de 70 milhões de pessoas convivem com esses quadros no mundo. “Um transtorno alimentar, muitas vezes, começa com uma dieta. A pessoa emagrece, recebe elogios e passa a associar o valor pessoal à perda de peso. Em algum momento, ela perde o controle”, diz ela, supervisora do Ambulatório de Anorexia Nervosa do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim) da USP.
Esse mecanismo se soma ao estigma da obesidade. “No passado, falávamos em uma proporção de cerca de nove meninas para um menino (com transtorno alimentar). Hoje, esse número está sendo questionado porque temos visto um aumento importante de casos entre meninos”, diz Rogéria, que explica que entre eles o emagrecimento se dá pela busca de um corpo musculoso.
Estudos relacionam o emagrecimento extremo a desordens psicológicas, como depressão e ansiedade. Rogéria menciona duas fases da vida em que o corpo muda rapidamente: a adolescência e a menopausa. A psicóloga ressalta que perseguir um padrão irreal, mostrado na internet, pode gerar sofrimento psíquico. Desnutrição é outro risco.
Segundo Fernanda, a restrição alimentar intensa pode levar à deficiência de micronutrientes essenciais, como vitaminas e minerais. “No nosso estudo, observamos pessoas pulando refeições inteiras, comendo apenas por obrigação ou evitando comer para não passar mal”, diz.
Maeda alerta que a restrição exagerada de nutrientes pode causar queda de cabelo, alterações na pele e nas unhas, fraqueza, cansaço, queda da pressão e da glicemia. Fernanda acrescenta à lista alterações gastrointestinais e na vesícula.
A perda acelerada de massa muscular é preocupante. “Quanto maior a velocidade de perda de peso, maior parece ser a perda de massa muscular”, explica Hamilton Roschel, nutricionista, fisiologista do esporte e diretor científico do CMV/USP. Ele menciona evidências que indicam que entre 25% e 39% do peso eliminado com as canetas pode corresponder à massa livre de gordura, o que inclui músculo.
A perda muscular acelerada aumenta o risco de quedas, fraturas e da resistência à insulina, que aumenta o risco de diabete. Outro impacto é a piora do metabolismo basal e da saúde óssea. “Quando há perda rápida de peso, a pessoa não perde só gordura. Pode haver perda muscular e impacto direto na massa óssea”, diz Maeda.
“Quando usadas sem avaliação médica adequada, sem indicação correta ou sem acompanhamento de exames, aumentam os riscos de pancreatite aguda, perda muscular muito rápida, constipação ou diarreia intensa”, diz Maeda.
O coordenador da SBEM reforça que o uso sem indicação pode levar à desnutrição, perda de massa muscular, hipoglicemia e alterações gastrointestinais, além do risco de mascarar problemas de saúde.
Embora a semaglutida e a tirzepatida tenham um papel importante no tratamento da obesidade, os efeitos variam, dizem especialistas. Para Maeda, quando a medicação é usada por quem não é o público-alvo e sem mudanças no estilo de vida, o resultado tende a ser limitado. Já o emagrecimento com acompanhamento especializado, com dieta equilibrada e atividade física traz benefícios que vão além da balança.
Segundo o endocrinologista, esse processo favorece a ingestão adequada de nutrientes, melhora a saúde cardiovascular, fortalece ossos e articulações e contribui para o bem-estar emocional. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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