Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 30 de maio de 2021
Apesar de ainda estar longe de completar a imunização contra o coronavírus, o Brasil precisa desde já discutir como fará a revacinação de idosos. Essa é a conclusão do infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz, a partir de estudo recente que indica uma efetividade menor da CoronaVac entre as pessoas de 80 anos ou mais, do qual é um dos autores. Nesse público, a efetividade encontrada foi de preocupantes 28%.
O trabalho, realizado pelo grupo Vebra Covid-19, foi divulgado em 21 de maio na forma de “pré-print”, ou seja, ainda sem revisão de outros especialistas.
A pesquisa, financiada pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS), examinou dados de quase 15,9 mil idosos brasileiros para verificar a proteção da vacina chinesa contra a doença. Foram encontrados desempenhos considerados bons entre os idosos de menos idade, mas o resultado foi caindo progressivamente conforme se avançava nas faixas etárias: dos 70 aos 74 anos, foi calculada em 61,8%, e, dos 75 aos 79, ficou em 48,9%.
Em comparação, o estudo de fase 3 conduzido pelo Instituto Butantan com 12,5 mil profissionais da saúde, responsável por embasar a aprovação do produto no país, encontrou efetividade geral de 50,7%.
Segundo Croda, o foco para uma revacinação deve estar no grupo de 80 anos ou mais de idade.
“Historicamente já sabemos que a resposta imune da pessoa idosa é menor. Mas podemos entender quais vacinas possuem os melhores dados de efetividade para essa população. É o momento de discutir, sim, e de pensar qual seria a melhor proposta, à luz das evidências que nós temos atualmente”, defende ele.
Uma ideia, aponta Croda, é a de revacinar os idosos de mais de 80 com produtos que já mostraram dar proteção maior, como os feitos com a nova tecnologia de RNA mensageiro, caso da Pfizer e da Moderna (no Brasil, apenas a primeira está em uso). Eles apresentaram eficácia na casa dos 90% em estudos.
Ou, para seguir a vacinação desse grupo com a CoronaVac, descobrir com novos testes quais seriam os resultados de uma dose de reforço dessa vacina de vírus inativado, uma tecnologia mais tradicional. Essa adaptação na campanha, ressalta Croda, não significaria uma aposentadoria do imunizante do Butantan:
“Numa pessoa jovem, que tem boa resposta imunológica, a CoronaVac deve ter uma boa resposta, provavelmente maior do que no ensaio clínico, feito só em trabalhadores de saúde, em que o risco de aquisição da doença é maior e a gente espera uma eficácia menor.”
Proposta não é consenso
A proposta de Croda não é consenso, no entanto. Regiane de Paula, coordenadora do Programa Estadual de Imunização do governo de São Paulo, que também é uma das autoras do estudo, opina que mais dados são necessários.
“Baseado em um estudo com dados preliminares, não temos motivo nenhum para fazer essa revacinação ou solicitar que esse público-alvo [de 80 anos ou mais] seja revacinado”, disse ela em evento do governo Doria na quarta-feira.
A médica Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), que não participou do estudo, tem opinião semelhante:
“Não sabemos por quanto tempo a vacina protege, se vai precisar de reforço. E uma única publicação não faz mudar a recomendação, embora acenda uma lanterna”.
No estudo, foi observado apenas se as pessoas contraíram ou não o vírus, por meio de resultados de testes PCR, e se tiveram sintomas. Não foi avaliada a diferença que a vacina fez em hospitalizações e mortes. Esse tipo de informação será apresentada em um próximo trabalho do grupo, em junho, com dados de idosos da cidade de São Paulo.
O grupo de cientistas também trabalha em um artigo sobre a efetividade da vacina de Oxford/AstraZeneca em relação às internações e óbitos. Os dados, dessa vez, virão de idosos de Manaus, que foram imunizados com o produto em janeiro, durante a crise sanitária que parou a cidade.
A epidemiologista Denise Garrett, brasileira que é vice-presidente do Instituto Sabin (EUA), avalia que serão esses dados sobre os desfechos dos pacientes que vão determinar os próximos passos. Para ela, porém, Croda inaugura uma discussão necessária, porque já há um número preocupante sobre o qual refletir: o percentual de 28% está abaixo do mínimo de proteção recomendado pela OMS para uma vacina contra Covid, que é de 50%.
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