Segunda-feira, 09 de março de 2026
Por Redação O Sul | 8 de março de 2026
Depois de choques como o tarifaço, desde abril de 2025, e a operação militar na Venezuela, que capturou o presidente Nicolás Maduro em janeiro, o governo Donald Trump causa nova turbulência na economia global com a guerra contra o Irã, deflagrada há uma semana, em conjunto com Israel. Os impactos negativos incluem aumento no custo de transporte do comércio global, inflação em alta por causa da disparada nas cotações do petróleo, juros maiores mundo afora, adiamento de investimentos e desaceleração da economia global.
Por outro lado, podem sair ganhando empresas petroleiras e gigantes do transporte marítimo. Países exportadores de petróleo, como o Brasil se tornou nos últimos anos, tendem a ser menos prejudicados.
A Europa está entre as economias mais afetadas. Desde que parou de comprar gás natural da Rússia, após a invasão russa na Ucrânia, em 2022, os europeus passaram a importar GNL, o gás liquefeito, transportado em navios. Ano passado, as importações de GNL da Europa saltaram 30%, com 77,5% das compras fornecidas pelos EUA, segundo a Standard & Poor’s (S&P). E a nova guerra fez as cotações dispararem: na sexta-feira, os contratos futuros de gás natural na Europa caminhavam para alta de 60% na semana, segundo a agência Bloomberg.
Rotas comerciais
Além da dependência do gás e do petróleo, a Europa “está ali no meio” das rotas fundamentais para o comércio global, e que são afetadas pela guerra, lembra Lia Valls, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), especialista em comércio exterior.
O Aeroporto Internacional de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, é o segundo maior do mundo em fluxo de passageiros, com 92,3 milhões, em 2024, segundo o Conselho Internacional de Aeroportos (ACI, na sigla em inglês), enquanto o terminal de Doha, no Catar, é o oitavo maior em cargas. O Canal de Suez, no Egito, liga o Mediterrâneo ao Mar Vermelho e, depois, ao Oceano Índico, conectando Europa e Ásia, enquanto pelo Estreito de Ormuz, que dá acesso ao Golfo Pérsico, passam 20% do petróleo e gás do mundo.
Mas não somente, segundo a MTM Logix, especializada no monitoramento de embarques internacionais. É por ali que circulam 25% dos fertilizantes e 35% dos produtos químicos e plásticos. Além disso, 15% de todos os grãos comercializados no mundo, que têm como destino países do Golfo Pérsico, usam essa rota.
Ambas as rotas marítimas estão bloqueadas com a escalada bélica, assim como milhares de voos foram cancelados nos hubs (centros de distribuição de voos) aéreos do Oriente Médio.
Sobretaxas de guerra
Como resultado, desde o fim de semana passado, as principais empresas de navegação já vêm aplicando “sobretaxas de guerra” sobre seus fretes. Em comunicado aos clientes, a gigante francesa CMA CGM suspendeu as operações em todos os portos do Oriente Médio e passou a aplicar, desde segunda-feira, taxa entre US$ 2 mil e US$ 4 mil por contêiner. A dinamarquesa Maersk suspendeu o transporte de cargas refrigeradas e especiais para lá e comunicou que “poderá haver volatilidade nas tarifas”. As demais concorrentes, como a suíça MSC, foram no mesmo sentido.
Alta do petróleo
Outro canal de transmissão do custo-Trump é a disparada nas cotações do petróleo. O barril do Brent passou dos US$ 90 na sexta-feira (6). Isso espalha inflação no mundo, seja diretamente, no preço dos combustíveis, o que aperta o orçamento das famílias em vários países, seja indiretamente, ao elevar custos de transporte de mercadorias, repassados ao consumidor.
Para Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, uma alta de 10% na cotação do petróleo resulta num incremento de 0,15 a 0,40 ponto percentual na inflação global. Como resultado, bancos centrais mundo afora poderão ser levados a restringir as políticas de juros, elevando taxas ou evitando quedas.
Erosão da ordem global
Para Luiz Carlos Delorme Prado, professor do Instituto de Economia da UFRJ, a condição de exportador de petróleo pode até fazer o Brasil se sair “menos pior” no médio prazo, mas os riscos são maiores, porque a guerra, assim como o tarifaço, é novo capítulo da erosão da ordem global que guiou a economia mundial desde o pós-Segunda Guerra Mundial.
Ao abandonar as instituições de governança e ignorar o Direito Internacional, Trump inaugura um mundo de desordem, parecido com a segunda metade do século XIX. A geopolítica de então ficou marcada pelas cenas finais do colonialismo europeu e pela ascensão dos EUA e resultou nas duas Grandes Guerras.
“O Brasil depende das regras do sistema internacional. Temos capacidade diplomática, economia importante, postura independente. Agora, quando fica um jogo pesado, meramente militar, complica. O que garante que, amanhã, porque o pré-sal está longe das 12 milhas (náuticas, do mar territorial), os EUA não podem reivindicar algo do petróleo?”, questiona Delorme Prado. (As informações são de O Globo)
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