Terça-feira, 12 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 10 de novembro de 2019
O ex-senador Delcídio do Amaral, 64, comparou, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o discurso de inocência de Lula à tática atribuída a Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler. “Ele montou esse discurso. É a história do Goebbels na Alemanha nazista, de contar uma mentira várias vezes e ela acabar virando verdade.”
Derrubado pela Lava-Jato, o ex-senador também diz que a operação deixa um legado positivo, sobre a necessidade de boas práticas em estatais e no setor privado, mas falhou ao sufocar financeiramente as empresas investigadas.
“A gente não pode dizer que a Lava-Jato foi comandada por heróis, por deuses. O Brasil não precisa de heróis, e Deus só tem um”, afirmou.
Senador por Mato Grosso do Sul de 2003 a 2016, Delcídio foi em 2015 o primeiro senador a ser preso no exercício do mandato, sob a acusação de tentar atrapalhar as investigações da Lava-Jato. Veja trechos da entrevista.
1. O presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, quer que o sr. dispute a Prefeitura de Campo Grande em 2020. É seu plano?
Evidente que ser candidato a prefeito é uma honra. Mas o momento agora é de organização do partido, de agir na base do low profile, fazer a coisa com tranquilidade.
2. O sr. cogita voltar à política justamente num momento em que o eleitor, de forma geral, rechaça políticos tradicionais e apresenta um forte sentimento anticorrupção. Esses fatores seriam impeditivos? Nunca fui da velha política.
Sempre fui um político diferente. Não tenho família de políticos, trabalhei na iniciativa privada, nunca estive envolvido com corrupção, com desvio de dinheiro, com nada. O meu processo [na Lava Jato] foi por obstrução de Justiça. Fui inocentado e as provas, anuladas.
3. Como o sr. conecta o seu caso a este momento em que a Lava-Jato é amplamente questionada, com acusações de abusos e excessos?
Meu processo foi basicamente conduzido pela Procuradoria-Geral da República, e o mentor intelectual do meu caso se chama Marcello Miller, [ex-procurador] que era braço direito do então procurador-geral Rodrigo Janot. O flagrante forjado foi ele que estruturou.
Como o meu caso foi “exitoso”, entre aspas, eles repetiram isso. E aí o grand finale foi a gravação do ex-presidente Michel Temer. A condução adotada pela então PGR estava eivada de vícios.
Numa operação desse tamanho, há problemas. Ninguém tira o mérito da Lava-Jato, mas, que foram cometidos equívocos, foram. As mensagens [obtidas pelo The Intercept Brasil] demonstram isso.
4. E qual é o mérito, o legado da Lava-Jato?
Ela introduziu premissas para nomear gestores públicos nas estatais e evidenciou a necessidade de compliance nas empresas. Uma diferença, por exemplo, é que na CPI dos Correios, que eu presidi, tínhamos a preocupação de não prejudicar o andamento da economia. Tanto é que havia uma crise política, mas não econômica. A Lava Jato trouxe as duas crises. É gravíssimo. Tem que preservar as empresas e os empregos.
5. O então procurador-geral da República Rodrigo Janot se referiu ao sr. nos autos como “agente criminoso”. Como o sr. responde à afirmação?
Quem respondeu foi a própria Justiça, de forma isenta, rigorosa, incontestável. O Janot… Você viu o que ele fez recentemente, né?
6. Na CPI dos Correios o sr. investigou Roberto Jefferson, que hoje é seu aliado político, presidente do seu partido. Isso cria algum constrangimento? Indica alguma contradição no seu modo de agir?
Olha, eu acho que o Roberto Jefferson prestou um serviço extraordinário para o país, ao assumir o que ele assumiu, ao relatar os acordos, a composição montada no governo Lula. Temos uma relação respeitosa.
7. Agora distante do PT, como o sr. avalia o momento do partido? Considera possível que a sigla volte ao poder em um futuro próximo?
Mesmo com toda a crise, o PT tem a maior bancada na Câmara hoje. Agora, o PT tem que fazer um mea-culpa. Não é feio fazer mea-culpa. Na vida a gente erra, rapaz. Tem que ter humildade para reconhecer onde errou, para avançar.
8. Como o sr. vê a tese do PT e de Lula de ser um preso político e ser inocente?
Na verdade, ele montou esse discurso. É a história do Goebbels na Alemanha nazista [Joseph Goebbels foi ministro da propaganda de Hitler], de contar uma mentira várias vezes e ela acabar virando verdade. Para uma parte das pessoas, né? Essa tese, de tanto eles baterem nisso e à luz das mensagens do Intercept, de certa maneira ganhou força.
9. Então o sr. considera que há um fundo de verdade nessa tese de perseguição, que ela é parcialmente verdadeira?
Podem ter ocorrido equívocos no processo judicial, mas a essência é verdadeira. Até porque muitas pessoas confirmaram isso, documentalmente.
Os comentários estão desativados.