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Saúde Dispositivo crucial na luta contra o coronavírus pode não funcionar em pele negra

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O oxímetro de pulso mede o nível de oxigênio no sangue

Foto: Reprodução
O oxímetro de pulso mede o nível de oxigênio no sangue. (Foto: Reprodução)

Na luta contra a Covid-19, o oxímetro de pulso tem sido uma ferramenta essencial para médicos e outros profissionais da saúde. Mas o pequeno dispositivo que monitora os níveis de oxigênio pode não funcionar bem para pessoas com pele negra, é o que mostram alguns estudos e agências de saúde do governo.

Os oxímetros de pulso, que tiveram seu uso aumentado durante a pandemia, podem gerar resultados imprecisos, alertou a Food and Drug Administration dos Estados Unidos na última sexta-feira (19).

No início da semana, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos também atualizaram suas orientações clínicas de coronavírus, para alertar médicos e enfermeiros sobre dados de vários estudos que sugerem que a pigmentação da pele pode afetar a precisão dos dispositivos.

“Embora os oxímetros de pulso possam ser úteis para estimar os níveis de oxigênio no sangue, esses dispositivos têm limitações que podem resultar em leituras imprecisas”, disse em um comunicado o Dr. William Maisel, diretor do Escritório de Avaliação e Qualidade de Produtos do Centro de Dispositivos e Saúde Radiológica da FDA.

Os oxímetros de pulso são pequenos dispositivos semelhantes a pinças, que se fixam sem dor ao dedo do paciente e monitoram constantemente a quantidade de oxigênio no sangue. A Covid-19 é uma doença respiratória, o que significa que ataca primeiro os pulmões, portanto, os baixos níveis de oxigênio são um sinal de que o paciente pode estar piorando. Os dados do CDC mostram que negros, latinos e nativos americanos têm quatro vezes mais probabilidade de serem hospitalizados com Covid-19 do que outros pacientes.

As recentes advertências surgiram após um estudo publicado no New England Journal of Medicine em dezembro. O Dr. Michael Sjoding e vários profissionais da Universidade de Michigan analisaram dados de mais de 10.000 pacientes. Para cada paciente, eles compararam os níveis de oxigênio registrados por um oxímetro de pulso com aqueles medidos pela gasometria arterial – um procedimento muito mais preciso, mas doloroso e invasivo.

Os pesquisadores queriam saber com que frequência o oxímetro de pulso mostrava um nível de oxigênio relativamente normal, quando deveria estar registrando algo mais preocupante.

Em pacientes brancos, o oxímetro de pulso deu um número impreciso 3,6% das vezes. Já em pacientes negros, era 11,7% das vezes. A conclusão, diz o Dr. Sjoding, é que os oxímetros de pulso tinham três vezes mais chances de perder níveis significativamente baixos de oxigênio – ou hipoxemia – em pacientes negros. O estudo sugere que um em cada 10 pacientes negros pode estar obtendo resultados enganosos.

Por que as leituras não são precisas

Existe uma explicação relativamente simples para o motivo. Os oxímetros de pulso funcionam enviando dois tipos de luz vermelha pelo dedo. Um sensor do outro lado do dispositivo capta essa luz e a usa para detectar a cor do seu sangue; o sangue vermelho brilhante é altamente oxigenado, enquanto o sangue azul ou púrpura é menos. Se o dispositivo não estiver calibrado para pele mais escura, a pigmentação pode afetar a forma como a luz é absorvida. O esmalte escuro pode causar um efeito semelhante.

Médicos experientes não confiam apenas no oxímetro de pulso para fazer um diagnóstico ou decidir o tratamento de um paciente, diz a Dra. Michelle Ng Gong, chefe de Medicina Intensiva e chefe de Medicina Pulmonar do Montefiore Medical Center em Nova York.

“Eles nunca diriam a um paciente que eu não me importo com o quão mal você se sinta, desde que esse número esteja OK, não se preocupe com isso”, diz a Dra. Gong. “É uma ferramenta. E, como ferramenta, precisamos ser capazes de usá-la adequadamente no contexto de outras informações”.

Mas, diz Gong, durante a pandemia, quando os hospitais estão sobrecarregados e médicos que normalmente não estão no pronto-socorro são trazidos para ver e fazer a triagem dos pacientes, os números de um oxímetro de pulso podem ter mais peso. Uma leitura imprecisa pode ser particularmente problemática se o nível de oxigênio do paciente for limítrofe.

Os médicos também precisam estar cientes de seu próprio preconceito inconsciente, diz a Dra. Gong. Estudos mostram, por exemplo, quando os afro-americanos se queixam de dor, é menos provável que recebam tanto (ou qualquer) medicação para a dor quanto os brancos. Se um paciente diz que está tendo problemas para respirar, os médicos não devem dispensá-lo apenas porque a leitura do oxímetro de pulso é normal.

“A única maneira de reduzir as disparidades de saúde”, diz a médica, “é atacarmos de múltiplas extremidades, tanto de contribuições maiores quanto de nossas interações pessoais.”

Os médicos também não são os únicos a usar oxímetros de pulso. Quando os hospitais atingiram a capacidade máxima durante a pandemia, alguns pacientes da Covid-19 com sintomas menos graves foram enviados para casa para monitorar seu progresso. De acordo com pesquisas de mercado, as vendas de oxímetros de pulso para uso doméstico aumentaram 500% desde que o novo coronavírus chegou aos Estados Unidos.

Amy Moran-Thomas, professora de antropologia do MIT, começou a pesquisar oxímetros de pulso no ano passado, quando seu marido foi mandado para casa com um.

As descobertas não são novas

Moran-Thomas descobriu estudos que remontam a década de 1990, que sugeriam que havia um problema com oxímetros de pulso em pacientes de pele mais escura. Em 2005, um estudo feito no Laboratório de Hipóxia da Universidade da Califórnia, em San Francisco, descobriu que três modelos diferentes de oxímetros de pulso superestimavam os níveis de oxigênio em pacientes de pele escura. Eles fizeram um estudo de acompanhamento em 2007 com resultados semelhantes.

“Uma leitura de 77 como a de meu marido poderia esconder uma verdadeira saturação tão baixa quanto 69 – perigo ainda maior imediato. Mas paramédicos ou enfermeiras de admissão podem não ser capazes de detectar essas discrepâncias. O número parece objetivo e sem raça definida”, Moran- Thomas escreveu na Boston Review.

Moran-Thomas se perguntou por que o problema, identificado décadas atrás, ainda não havia sido corrigido. “Eu sou um médico pulmonar e de cuidados intensivos”, disse o Dr. Sjoding, que começou seu estudo após ler o artigo de Moran-Thomas. “Um de nossos co-autores é um médico negro proeminente da Universidade de Michigan. Nenhum de nós sabia disso. Nenhum de nós sabia sobre esses estudos desde meados dos anos 2000. Não fazia parte do nosso treinamento.”

A atenção do público parece estar aumentando sobre o assunto. Em 25 de janeiro, vários senadores dos EUA enviaram ao FDA uma carta instando-os a examinar a questão. O FDA é responsável por aprovar qualquer oxímetro de pulso médico antes de entrar no mercado. A agência atualmente exige que os oxímetros de pulso sejam testados em uma variedade de tons de pele, o que significa “pelo menos 2 pigmentados escuros ou 15% do público da pesquisa, o que for maior.”

O FDA diz que está revisando cuidadosamente os dados disponíveis para determinar se orientações adicionais ou estudos da agência são necessários. Recentemente, ela aprovou um oxímetro de pulso para smartphone que afirma funcionar em todos os tons de pele, usando um período de calibração automática de 10-20 segundos para medir com precisão como a luz se move através da pele do usuário.

“Esses dispositivos não se destinam a ser o uso único ou primário de informações para fazer um diagnóstico clínico ou decisão de tratamento”, disse o Dr. Maisel à CNN em uma entrevista na quarta-feira (17). “As pessoas não devem confiar totalmente na leitura do oxímetro de pulso, mesmo que seja o produto mais preciso”.

“Apenas certifique-se de estar ciente disso ao tomar decisões”, diz o Dr. Sjoding. “A leitura do oxímetro de pulso pode estar alguns pontos fora. E se for esse o caso, você cuidaria desse paciente de uma maneira diferente?”.

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