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Colunistas Do carnaval político às bolhas digitais: o Brasil diante da urna

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(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Neste 4 de outubro de 2026, dia de eleição, milhões de brasileiros repetem um gesto que parece simples: ir até a urna e votar. Mas por trás desse ato cotidiano existe uma história de lutas, transformações e memórias que merecem ser revisitadas.

Nasci em 1968 e, ao fazer um exercício de memória, volto à minha primeira eleição. Eram outros tempos. As ruas ficavam tomadas por “santinhos” espalhados pelo chão, os postes revestidos de cartazes coloridos, os comícios eram verdadeiras festas populares. Havia música, discursos inflamados e uma atmosfera de carnaval político. O civismo era sentido de forma diferente, mais espontâneo, sem a polarização ideológica que hoje parece dividir tudo. Votar era um ritual de pertencimento, uma celebração coletiva.

De lá para cá, muitas eleições se sucederam. O cenário mudou. Hoje, o processo é mais midiático, dominado pelas redes sociais, pela velocidade das informações — e também das desinformações. Os eleitores se veem cada vez mais presos em bolhas digitais, criadas por algoritmos e reforçadas por grupos seletivos de WhatsApp. Nessas bolhas, circulam apenas versões parciais da realidade, opiniões que se retroalimentam e que dificultam o diálogo amplo.

Se antes o voto era acompanhado de papel, cartazes e comícios, agora é mediado por telas, algoritmos e transmissões instantâneas. A festa mudou de forma, mas não de essência: continua sendo o momento em que o povo decide.
Outro ponto que merece reflexão é o papel dos programas de governo. Quantos de nós realmente consultamos e analisamos as propostas apresentadas pelos candidatos?

Quantos param para comparar promessas com a realidade, para verificar se são viáveis ou se repetem discursos já ouvidos em eleições passadas? Muitas vezes, o eleitor se deixa levar pela emoção, pela propaganda ou pela influência das bolhas digitais, sem mergulhar no conteúdo que deveria orientar sua escolha. O voto, nesse sentido, é também um exercício de consciência crítica: não basta apertar um botão, é preciso compreender o que está em jogo.

Ao longo dos anos, não fui apenas eleitor. Em várias eleições atuei como mesário e presidente de mesa, funções que desempenhei com orgulho. O escrutínio era um grande evento, acompanhado pela sociedade e transmitido pelos meios de comunicação. Havia uma solenidade no momento da apuração, uma sensação de que todos estavam juntos, atentos ao destino que se desenhava. Essa experiência reforçou em mim a importância de cada voto, de cada participação.

Hoje, confesso que a sensação é mais de “cumprir tabela” do que de viver um ato cívico vibrante. Talvez porque a democracia tenha amadurecido e o voto tenha se tornado rotina. Mas não podemos esquecer que essa rotina foi conquistada com muito esforço. Houve tempos em que votar era restrito, em que a participação popular era limitada. Cada geração que veio antes de nós lutou para que o voto fosse universal, secreto e respeitado.

Para os jovens que votam pela primeira vez, é essencial compreender que esse direito não é apenas um procedimento burocrático. É fruto de uma construção coletiva, de mobilizações e de sonhos. É a chance de dizer que acreditamos na democracia como caminho para resolver nossas diferenças. Para os mais velhos, o voto é um convite à lembrança: recordar o frio na barriga da primeira vez, a esperança depositada em candidatos, a decepção diante de promessas não cumpridas. Revisitar essas memórias é também revisitar o percurso do país.

O voto é, portanto, mais do que um ato individual. É um pacto coletivo. É a oportunidade de afirmar que queremos um Brasil capaz de superar suas feridas e encontrar um caminho que seja para todos. Não se trata apenas de partidos ou ideologias, mas de garantir que a democracia continue sendo o espaço onde nossas vozes se encontram e se transformam em decisões.

Hoje, ao votar, penso em tudo que já vivi desde aquela primeira eleição. Penso nos jovens que começam agora sua trajetória cívica e nos mais velhos que carregam décadas de experiência. Penso na importância de não deixar que o voto se torne apenas uma obrigação, mas que continue sendo um gesto de consciência, memória e esperança.

Que cada eleitor, ao apertar o botão da urna, sinta que está escrevendo mais uma linha da história do Brasil. E que essa história seja feita de participação, respeito e busca por um país mais justo e inclusivo. Afinal, tudo isso — dos santinhos nas ruas às bolhas digitais, dos comícios festivos às transmissões instantâneas, dos programas de governo às promessas que precisamos cobrar — nos trouxe até aqui. E é aqui, diante da urna, que seguimos construindo o futuro.

– Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética. Contato: rena.zimm@gmail.com

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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