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Do papel à história: a grenalização não pode governar o nosso futuro!

Processo de licença foi conduzido pela Fepam. (Foto: Vitor Rosa/Secom)

Há algum tempo, escrevi neste mesmo espaço sobre a necessidade urgente de transformarmos grandes projetos em realidades concretas, levando o Rio Grande do Sul “do papel à história”. Defendi que o desenvolvimento não pode ser refém da burocracia que o imobiliza. Hoje, volto a esse tema com o coração renovado, fruto da excelente notícia para os trabalhadores: a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) emitiu a Licença Prévia para o Projeto Natureza, da CMPC, em Barra do Ribeiro.

Esse passo fundamental tira da gaveta um investimento histórico de R$ 27 bilhões. Para nós, da construção civil, esse número tem um significado muito mais profundo do que o valor financeiro: ele representa 12 mil empregos diretos e indiretos na fase de obras. São 12 mil pais e mães de família que terão a oportunidade de erguer, com o suor do próprio trabalho, a sua dignidade. No entanto, o caminho até essa assinatura nos deixa uma lição amarga sobre o maior obstáculo cultural que enfrentamos hoje: a grenalização de temas de interesse público.

No Rio Grande do Sul, a rivalidade corre nas veias. Nós nascemos e, quase imediatamente, recebemos uma camiseta. A disputa entre Grêmio e Internacional permeia nossa infância, nossas escolas, nossos ambientes de trabalho e as mesas de bar. Essa paixão é bonita, faz parte da nossa identidade e deve ser preservada – desde que permaneça exatamente onde deve estar: nas arquibancadas e nos momentos de lazer. O grande erro histórico do nosso Estado tem sido permitir que essa lógica binária e cega invada as pautas decisivas da nossa sociedade, como o desenvolvimento econômico e social.

Para entender o perigo disso, vou usar uma analogia simples do nosso cotidiano: a atuação de um médico plantonista em uma emergência hospitalar. Quando um paciente em estado grave dá entrada na UTI, o médico – seja ele de direita ou de esquerda, gremista ou colorado – não faz perguntas sobre a ideologia ou a preferência clubística de quem está na maca. Ele simplesmente cumpre seu dever técnico e ético: salvar a vida.

Infelizmente, o que vimos ao longo do processo de licenciamento da CMPC foi o oposto desse princípio. Alguns setores, movidos por um forte viés ideológico, tentaram, por diversas vezes, paralisar o projeto no “tapetão” judicial. Quando um agente público usa suas prerrogativas institucionais para impor visões ideológicas pessoais, ignorando critérios científicos e técnicos, comporta-se como um juiz de futebol parcial, que quer aparecer mais do que o espetáculo. Na economia, o desemprego e a falta de oportunidades são a nossa UTI. Quem está na fila do desemprego tem pressa e tem fome; não pode esperar que os “cartolas” da ideologia decidam quem vai ganhar a narrativa da vez.

Na lógica destrutiva da grenalização, o objetivo principal deixa de ser o avanço do Rio Grande do Sul e passa a ser a derrota do adversário. Se o projeto avança, a torcida contrária chora; se o projeto é cancelado, comemora-se um gol contra o próprio patrimônio. Mas a verdade nua e crua é que a fome, a falta de teto e o desemprego não têm partido político nem vestem a camiseta de um clube.

A emissão dessa licença ambiental pela Fepam rompe com essa falsa dualização. Ela demonstra, de maneira inequívoca, que é plenamente possível conciliar desenvolvimento econômico robusto com sustentabilidade rigorosa e responsabilidade social. Não precisamos escolher um lado. A verdadeira sustentabilidade joga com as duas camisas: preserva o meio ambiente com critérios rigorosos, ao mesmo tempo que gera o sustento necessário para resgatar a dignidade do trabalhador.

Que as paixões e as disputas fiquem reservadas aos estádios e aos finais de semana. Na hora de construir o futuro do Rio Grande do Sul, precisamos ter a maturidade de desarmar os palanques, guardar os mantos da discórdia e colocar o capacete de trabalho. O desenvolvimento dos trabalhadores, dos empresários e, em última análise, de toda a sociedade é um jogo que só se vence se jogarmos todos no mesmo time.

* Gelson Santana, Presidente do STICC, Secretário Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil, Construção Pesada e Montagem Industrial – UGT

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