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Colunistas Do proletariado ao obsoletariado: a era dos neologismos

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Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Nas minhas colunas periódicas no jornal O Sul, da Rede Pampa, venho insistindo em um tema que considero central: a humanidade está vivendo um ponto de inflexão. Em textos anteriores, tratei da avalanche de informações, da hiperconectividade que nos coloca em um verdadeiro delírio coletivo e dos algoritmos que, silenciosamente, passam a controlar nossas escolhas. Esse cenário não é apenas pano de fundo, mas o próprio palco em que se desenrola a transformação mais radical da nossa história recente.

Escrever nesse ambiente é sempre um desafio. Os assuntos se misturam, a urgência atropela a reflexão e, se não houver cuidado, um artigo pode se transformar em uma sopa confusa de ideias. É preciso disciplina para organizar o pensamento e coragem para enfrentar temas que parecem escapar a cada instante.

Hoje quero falar de neologismos. Um neologismo é uma palavra nova criada para dar nome a algo que ainda não tinha expressão própria. Eles surgem para preencher lacunas de significado e, muitas vezes, acabam se tornando parte do vocabulário comum. Foi assim com “selfie”, “blog” e tantos outros termos que nasceram em nichos e se espalharam pelo mundo.

Nesta semana, ouvi um termo que me chamou atenção: obsoletariado. Trata-se de um neologismo criado no Brasil, sem reconhecimento científico ou acadêmico formal, mas que provoca reflexão. Ele designa uma possível nova classe social formada por trabalhadores tornados obsoletos pela automação e pela inteligência artificial. É uma junção de “obsoleto” com “proletariado”, e sugere que, em breve, milhões de pessoas poderão se ver fora do jogo econômico simplesmente porque suas funções foram substituídas por máquinas e algoritmos.

Esse conceito dialoga com outro termo já consolidado internacionalmente: o precariado. Criado pelo economista britânico Guy Standing, o precariado refere-se a trabalhadores em situação precária, sem estabilidade, direitos ou perspectivas de longo prazo. Diferente do obsoletariado, o precariado tem reconhecimento acadêmico e já é objeto de estudos em sociologia e economia. Ambos derivam do conceito de proletariado, usado por Karl Marx para designar a classe trabalhadora que vende sua força de trabalho.

Marx levou quinze anos para escrever O Capital, publicado em 1867, com o objetivo de criar um pensamento crítico em relação ao capitalismo que se consolidava na Europa industrial do século XIX. Hoje, os neologismos surgem em velocidade absurda, correlata ao ponto de inflexão que vivemos. Se Marx precisou de uma década e meia para amadurecer sua obra, nós criamos termos novos em questão de dias, impulsionados pela hiperconectividade e pela urgência de nomear fenômenos que se multiplicam.

A reflexão que se impõe é: para onde tudo isso nos levará? A inteligência artificial, a robótica, a biotecnologia e a internet das coisas são evidências de que estamos diante de uma transformação inevitável. Nenhum setor ficará imune. O modo como trabalhamos, nos relacionamos e até como pensamos está sendo reconfigurado.

Até mesmo o ato de ler um livro se tornou um desafio. Quem se dedica horas à leitura quando um aplicativo oferece um resumo instantâneo, em áudio acelerado, pronto para ser consumido em minutos? Mas a mente humana não foi programada para funcionar assim. Nossas sinapses e conexões neurais seguem um processo biológico que exige tempo, pausa e reflexão. A aceleração artificial pode trazer estragos profundos, criando uma geração incapaz de sustentar atenção e pensamento crítico.

Estamos, portanto, diante de um dilema: ou aceitamos a superficialidade como regra, ou lutamos para preservar a profundidade em meio ao turbilhão. O obsoletariado pode ser apenas um neologismo, mas simboliza o risco real de uma humanidade que se torna obsoleta diante da própria velocidade que criou.

O ponto de inflexão está aí. As mudanças são inevitáveis. Cabe a nós decidir se seremos protagonistas ou meros espectadores de uma história que corre mais rápido do que nossas mentes conseguem acompanhar.

(Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética – contato: rena.zimm@gmail.com)

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