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Cinema Documentário mostra a época agitada vivida por Lennon e Yoko em Nova York

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Filme usa material dos arquivos da família Lennon nunca vistos (ou ouvidos. (Foto: Reprodução)

Dirigido por Kevin Macdonald e Sam Rice-Edwards, “One to One: John & Yoko” apresenta suas armas logo no início: uma citação de John Lennon (1940-1980) sobre como seu supletivo sobre os EUA foi o que viu na TV, ao mudar com Yoko Ono para Nova York no final de 1971, no período imediato à dissolução dos Beatles. “Atualmente talvez tenhamos a mesma experiência online, mas naquela época a TV era a forma de entender a cultura, o contexto e tudo mais”, explicou Macdonald numa entrevista recente a Sarah Shachat no podcast “Filmmaker Toolkit” da revista especializada online IndieWire.

“Então pensei: ‘Por que não fazemos um filme sobre John e Yoko sentados na cama, no pequeno apartamento deles no West Village, na Bank Street, assistindo a TV, enquanto nós assistimos junto com eles e vemos o que está acontecendo nos Estados Unidos nesse período específico?’”.

É a estrutura básica de “One to One”, disponível em streaming pela HBO Max. O título se refere ao show beneficente protagonizado por John, Yoko e a Plastic Ono Elephant’s Memory Band em agosto de 1972 no Madison Square Garden de Nova York. Indicado a melhor documentário musical para a premiação da IDA (International Documentary Association) a ser entregue no próximo dia 6, “One to One” extrai sua força ao se apartar do formato. Etiqueta por etiqueta, documentário de arquivo melhor o caracteriza.

Pontos altos da apresentação (“Come Together”; “Instant Karma”) se alternam com trechos de comerciais, programas e jornais televisivos. Complementam-nos registros do arquivo Lennon/Ono, como fotos, “home movies”, filmes experimentais próprios e, de especial impacto, gravações telefônicas de suas conversas com colaboradores no período.

Eles reinventavam as próprias vidas e mergulhavam na militância política. Não faltavam causas nobres, à frente o combate à guerra do Vietnā, ao despotismo de Richard Nixon (1913-1994) na Casa Branca, à opressão e violência contra os afro-americanos, à repressão aos protestos estudantis contra o estado das coisas. David Leaf e John Scheinfeld dissecaram esta vereda cívica, com ênfase na retaliação sob a forma de monitoramento e processo que buscaram a deportação do músico, em ainda maior detalhe em “Os EUA x John Lennon” (2006).

Ativismo

Não ceder à apatia, clamava Lennon para as câmeras, ao lado de uma das figuras mais centrais do ativismo da época, Jerry Rubin (1938-1994). Nem todos saberão de pronto hoje quem foi Rubin, ou reconhecerão o poeta Allen Ginsberg (1926-1997), ou ficarão emocionados com a abertura da série “Mary Tyler Moore Show” (1970-1977). Mas, em “One to One”, o fluxo é a mensagem. Eis o espelho midiático dos EUA abraçados por John e Yoko naqueles primeiros anos.

Batalhas públicas são apenas uma das veredas. Há as experiências artísticas e não apenas musicais, notadamente uma exposição de Yoko. Mais sutilmente, desvelam-se as feridas íntimas.

“O principal era conseguir entrar na mente deles emocionalmente”, lembrou Macdonald em outra entrevista, a Jonathan Cohen, da Spin. “De certa forma, o cerne do filme é essa ideia da infância e das crianças traumatizadas. Temos Yoko, desesperada para encontrar sua filha desaparecida [Kyoko]. Temos John falando sobre o ressentimento que carrega por causa do relacionamento difícil com os pais e a dor da infância, o que explica a reação tão forte deles à reportagem na TV sobre as crianças com deficiência que viviam em Willowbrook.” Foi o que catalisou o show.

Uma ideia simples ancora todos os vetores: a construção de um cenário reconstituindo o pequeno apartamento ocupado pelo casal durante aquele ano e meio no West Village de Manhattan. Filmado sempre vazio, em planos gerais e registros aproximados, com uma grande cama ao centro e um aparelho de TV defronte, funciona como uma espécie de portal para uma experiência essencialmente a dois.

Nem sempre seria assim — para menos, para mais. Logo viriam a mudança para o edifício Dakota, colado ao Central Park; a separação provisória durante o “lost weekend” de Lennon; o reatamento e o nascimento de Sean; o último retorno com o álbum “Double Fantasy”. Com raras escapadelas, “One to One” se concentra enquanto a balada de John e Yoko ganhava nova estrofe. Em retrospecto, é das mais eufônicas. As informações são do Valor Econômico.

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