Quarta-feira, 08 de Julho de 2020

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Capa – Caderno 1 Documentos vazados mostram como a China criou campos de detenção para cerca de um milhão de muçulmanos

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Em discursos, o presidente Xi Jinping falou a líderes da região de Xinjiang que minorias deveriam ser tratadas sem "absolutamente nenhuma misericórdia". (Foto: Reprodução)

Documentos vazados ao jornal NYT (New York Times) mostram pela primeira vez como surgiram os campos de detenção na região de Xinjiang, no sul da China, onde são mantidos cidadãos de minoria muçulmana, e de que maneira eles são aprisionados em massa para serem submetidos a tratamentos para se livrarem do “vírus do extremismo religioso”.

De acordo com o jornal, 403 páginas de documentos foram entregues por um membro do meio político chinês, que permaneceu em anonimato, e que espera que líderes do Partido Comunista, entre eles o presidente chinês Xi Jinping, sejam responsabilizados por seus atos.

Os textos contêm trechos de discursos secretos de Xi a líderes da região, nos quais ele menciona que é preciso ser “severo” e “demonstrar absolutamente nenhuma misericórdia”. Embora não mencione especificamente detenções em massa ou a criação dos campos, o presidente chega a dizer que o partido precisa lançar mão de ferramentas da “ditadura” para erradicar o Islã radical da região de Xinjiang.

Ele compara o extremismo islâmico alternadamente a um contágio semelhante a um vírus e a uma droga perigosamente viciante, e diz que lidar com ele exige “um período de tratamento interventivo e doloroso”. Enquanto líderes chineses anteriores enfatizavam o desenvolvimento econômico para reprimir a agitação em Xinjiang, Xi afirma que isso não é suficiente. Ele fala em uma cura ideológica, um esforço para reconectar o pensamento das minorias muçulmanas da região.

O surgimento dos campos

O mais próximo que o presidente chega de sugerir a criação dos campos é uma defesa de um programa de doutrinação mais intenso nas prisões de Xinjiang, durante uma visita em 2014. “Deve haver reforma educacional e transformação eficazes de criminosos. E mesmo depois que essas pessoas sejam libertadas, sua educação e transformação devem continuar”, afirmou.

Meses após esse discurso, os campos de doutrinação começaram a ser abertos na região. No início, eles ainda não tinham o formato dos campos atuais: eram pequenas instalações que promoviam sessões onde centenas de cidadãos da etnia Uighur eram pressionados a renegar sua devoção ao Islã e demonstrar gratidão ao Partido Comunista.

A situação mudou em agosto de 2016, quando Chen Quanguo foi transferido do Tibete para governar Xinjiang. Considerado “linha dura”, ele reformulou a política local e expandiu drasticamente esses locais, acrescentando novos controles de segurança.

Em fevereiro de 2017, ordenou a milhares de policiais e militares que se preparassem para uma “ofensiva esmagadora, obliterante”. E, segundo os documentos obtidos pelo NYT, nas semanas seguintes estabeleceu planos para o início das detenções de Uighurs em grande escala.

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