Domingo, 24 de maio de 2026
Por Renato Zimmermann | 24 de maio de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Nos anos 80 e 90, crescer no interior do Rio Grande do Sul significava conviver com o tédio como um companheiro constante. Os domingos eram longos, silenciosos, quase intermináveis. Havia poucas opções de lazer, e encontrar algo para ocupar a mente era um desafio. O vazio das horas fazia parte da rotina: ruas tranquilas, poucas alternativas culturais, e uma juventude que se via obrigada a inventar formas de passar o tempo. O tédio era o problema da época, uma espécie de marca geracional.
Hoje, o cenário é outro. O tédio foi substituído pela ansiedade. As ruas já não ecoam os gritos e risadas das crianças em tardes ensolaradas de domingo. Não há mais a energia infantil ocupando praças e calçadas. Onde estão elas? Diante das telas digitais, mergulhadas em jogos, séries, vídeos e redes sociais. O espaço público, antes palco de brincadeiras, tornou-se silencioso, enquanto o espaço virtual se enche de movimento. A juventude atual não sofre pela falta de ocupação, mas pelo excesso dela. A ansiedade nasce da hiperconexão, da necessidade de estar sempre atualizado, sempre disponível, sempre entretido.
Essa mudança nos convida a refletir sobre a necessidade urgente da higiene digital. Se antes precisávamos aprender a lidar com o vazio, agora precisamos aprender a lidar com o excesso. Higiene digital não é apenas desligar o celular por algumas horas, mas recuperar o controle sobre o tempo e sobre a mente. É escolher o que realmente merece nossa atenção, é criar pausas conscientes, é permitir que o silêncio volte a existir sem que isso seja visto como perda.
Mas não basta apenas desligar as telas. É preciso reconectar-se com o real. As relações humanas, em tempos digitais, talvez precisem ser mais valorizadas do que nunca. O olhar nos olhos, o sorriso espontâneo, o simples gesto de dizer “olá” carregam uma força que nenhuma tecnologia pode replicar. A natureza, por sua vez, continua sendo a melhor tecnologia já criada: um pôr do sol que nunca se repete, o canto dos pássaros que nos lembra da vida pulsando ao redor, o vento que sopra e nos devolve a sensação de estar vivos. Esses elementos não exigem senha, não pedem atualização, não precisam de bateria. Eles apenas existem — e nos convidam a existir junto com eles.
Essa reflexão nasce de alguém que se preocupa consigo mesmo, com sua própria saúde mental, mas que também enxerga nos demais humanos os mesmos desafios. Vivemos todos em um tempo em que a mente é pressionada por estímulos constantes, e encontrar equilíbrio tornou-se uma tarefa coletiva. Talvez o remédio inevitável esteja justamente em voltar ao essencial: na natureza, nas relações humanas e, quem sabe, em um bom livro que nos permita mergulhar em outro mundo sem precisar de uma tela.
O domingo, que antes era sinônimo de tédio, hoje é sinônimo de ansiedade. Mas ele pode voltar a ser um espaço de encontro, de pausa, de contemplação. Basta que aprendamos a valorizar o que é simples e verdadeiro. O futuro da saúde mental talvez dependa menos de novas tecnologias e mais da nossa capacidade de redescobrir a beleza do que já está ao nosso redor. Afinal, não há aplicativo que substitua o calor de uma amizade, a paz de uma tarde ao ar livre ou a poesia silenciosa de um pôr do sol.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)
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