Segunda-feira, 20 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 19 de julho de 2026
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está com medo de perder a maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato, em novembro, e, assim, ver-se alvo de mais um processo de impeachment – desta vez com chances reais de prosperar no Senado. Isso explica o seu infame pronunciamento da quinta-feira (16), quando foi à TV em horário nobre para reafirmar, sem provas, que sua derrota para Joe Biden em 2020 foi “fraudada ou roubada”. Eis a base da confusão que Trump arma para as chamadas midterms.
O inimigo imaginário da vez é a China. Trump acusou Pequim de ter “roubado” dados de 220 milhões de eleitores. Como a realidade factual não tem relevância para golpistas, de nada valem as conclusões de dezenas de ações judiciais que Trump e seus aliados moveram para reverter a vitória de Biden sob a alegação de fraude. Tampouco as recontagens, as auditorias e a investigação do próprio Departamento de Justiça, que jamais chegaram a uma prova sequer de que houve fraude na eleição de 2020.
Não é a primeira vez que Trump tenta corroer a legitimidade de um processo eleitoral que, antes dele, nunca foi questionado a sério nos EUA. Novidade, se há, é o momento: falta pouco para as eleições que renovarão o Congresso. E, exclusivamente por seus deméritos, Trump corre sério risco de perder o apoio que sustenta seus desatinos no Capitólio. Nesse sentido, seu discurso não foi um alerta, foi um ardil para semear dúvidas antecipadas sobre o resultado das midterms, caso seja desfavorável ao Partido Republicano.
Grave por si só, o discurso golpista de Trump vem acompanhado de um esforço concreto de seu governo para alterar as regras do jogo antes mesmo de a eleição ocorrer. Recorde-se que dez Estados já mudaram ou estão mudando as fronteiras de seus distritos eleitorais, prática conhecida como redistricting. Trump pressionou aliados em Estados republicanos a redesenhar os mapas para ampliar as chances do partido em distritos disputados. Com a manobra, a Casa Branca estima ter de oito a dez cadeiras adicionais para os republicanos, o que seria suficiente para blindar a estreita maioria pró-Trump na Câmara, hoje com 218 assentos.
O governo também pressiona o Congresso a aprovar o Save America Act, que exige prova documental de cidadania para o registro eleitoral e dificulta o voto por correspondência. Ademais, comissários da Comissão de Assistência Eleitoral (EAC, na sigla em inglês) foram destituídos, deixando o órgão bipartidário sem quórum para certificar novos sistemas de votação. Como se nada disso bastasse, Trump, em pessoa, segue atuando como uma espécie de bedel ideológico do Partido Republicano nas primárias, infernizando a vida de qualquer candidato que não lhe preste vassalagem.
Outra medida que diz muito sobre as más intenções de Trump foi a confirmação de que os republicanos realizarão uma convenção nacional especial de meio de mandato, no Texas. A praxe de convenções nacionais apenas em ano de eleição presidencial foi rompida para que Trump possa influenciar diretamente as escolhas de seu partido em distritos nos quais a disputa está mais acirrada.
Esse rol de medidas, somado ao discurso presidencial que reedita teorias da conspiração envolvendo a eleição de 2020, obedece ao padrão do neopopulismo inaugurado por Trump. O presidente dos EUA, sendo quem é, não precisa provar fraude alguma, basta semear a dúvida para deslegitimar as eleições caso, de fato, perca o controle do Congresso em novembro. É sintomático que emissoras como ABC, NBC e CNN tenham hesitado em transmitir o pronunciamento, o que levou Trump a ameaçar com a cassação de suas licenças, um ataque frontal à liberdade de imprensa que só atesta seu vezo autoritário.
Não sem sobressaltos, a democracia americana tem sobrevivido a Trump, mas será testada novamente. Em novembro, o mundo verá se as instituições e o eleitorado dos EUA resistirão a um presidente que faz o que pode e o que não pode para reescrever as regras do jogo quando se dá conta de que pode perder a partida. (Opinião/O Estado de S. Paulo)
Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!