Terça-feira, 08 de setembro de 2026
Por Mariana Schamas | 6 de setembro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A dor não escolhe idade, gênero, raça ou condição social. Mas a forma como ela é vivida, interpretada e tratada está longe de ser igual. A ciência já demonstra que minorias sociais apresentam maior prevalência de dor crônica, maior carga de sofrimento e menor acesso ao tratamento adequado. Racismo estrutural, sexismo, discriminação e exclusão social não apenas adoecem: também influenciam a forma como sentimos e tratamos a dor.
Uma revisão sistemática brasileira publicada em 2012 no Brazilian Journal of Pain mostrou que a prevalência de dor crônica no Brasil varia entre 23% e 76%, com média de 45,6%, sendo mais frequente entre mulheres. Essa diferença não pode ser explicada apenas pela biologia. Ao longo da vida, muitas mulheres acumulam experiências dolorosas físicas e emocionais, convivem com sobrecarga de trabalho, desigualdade de gênero, violência e, frequentemente, ainda têm suas queixas minimizadas ou atribuídas apenas a fatores emocionais.
A situação é ainda mais preocupante para pessoas negras. Estudos internacionais mostram que elas recebem menos analgésicos, aguardam mais tempo por atendimento e têm seus relatos de dor subestimados em comparação com pessoas brancas. A população LGBTQIAPN+ também apresenta maior prevalência de dor crônica. Um estudo publicado na revista PAIN encontrou prevalência de 17,2% entre heterossexuais, 21,7% entre gays e lésbicas, 23,7% entre bissexuais e 27% entre pessoas que se identificaram como “outra identidade sexual”. O sofrimento psicológico foi o fator mais fortemente associado a essas diferenças.
Hoje sabemos que a dor não depende apenas da presença de uma lesão. Experiências persistentes de discriminação, violência, preconceito e insegurança mantêm o organismo em estado prolongado de estresse, produzindo alterações neurobiológicas que aumentam a sensibilidade à dor e favorecem sua cronificação.
É por isso que o modelo biopsicossocial da dor se tornou referência mundial. Além dos fatores biológicos, ele considera os aspectos psicológicos e sociais que moldam a experiência dolorosa. Compreender a história de vida, o contexto social e as barreiras enfrentadas por cada pessoa é parte do tratamento.
A dor também revela desigualdades. Cuidar dela exige mais do que exames e medicamentos: exige escuta, respeito, equidade e compromisso com a dignidade humana. Se a dor é uma experiência biopsicossocial, seu tratamento também precisa ser. Combater a desigualdade é, também, uma forma de aliviar a dor.

(Mariana Schamas, cinesiologista, Coordenadora do curso Dor e Movimento HCX USP, Professora e autora do Livro “A Dor é um Convite para a Mudança” – Editora Latitude)
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Banfo de preguiçosos tem tudo psra estudar e se formar arranjar um trabalho decentes, mas não querem acham melhor se vitimizar. O gente podre só sabem pedir e viver nas nossas costas dos nossos impostos!