Domingo, 30 de agosto de 2026
Por Rogério Pons da Silva | 30 de agosto de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Vamos direto ao ponto, sem rodeios.
A expressão “Efeito Cobra” foi originada a partir de uma iniciativa do governo da Índia, à época, sob domínio britânico ao final do século XIX .
Efeito Cobra ocorre com a implantação de políticas públicas ou privadas com a intenção ou pretexto de reduzir ou eliminar um problema, mas a ação em si acaba por piorar a situação inicial.
Vejamos :
Por volta de 1890, a capital da Índia, Délhi, hoje Nova Délhi, sofria terrivelmente com uma grande infestação de cobras venenosas.
Os Governantes preocupados com os acidentes e mortes criaram um programa estatal pagando em dinheiro como recompensa para cada cobra morta e entregue às autoridades.
De início parecia estar dando certo, porém estas artificialidades normalmente não levam em conta a variável, humanos e seus flagelos.
Moradores passaram a criar cobras em viveiros e na sequência buscar o prêmio, como uma forma de ampliar a renda familiar.
Passado algum tempo, os governantes descobriram o desvio do objetivo e suspenderam o pagamento do prêmio por cobras entregues.
Resultado:
A população que criava cobras em larga escala, frustrada com a perda do valor comercial soltaram os répteis nas ruas.
Com efeito, a quantidade de cobras nas ruas ficou maior do que havia antes do início do projeto.
O economista alemão Horst Sieberg em 2001 batizou este fenômeno como ” Efeito Cobra” para denominar os incentivos públicos inócuos ou perversos.
No Brasil já tivemos algo parecido.
Em 1906 o governo do Distrito Federal (Rio de Janeiro) implantou o programa chamado
” A caça aos ratos”.
O objetivo era combater a peste bubônica transmitida pela pulga dos ratos que infestavam a capital do país.
A Diretoria Geral de Saúde Pública-DF pagava em dinheiro uma quantia como recompensa por cada rato morto entregue no órgão público.
Assim como os indianos com as cobras, muitos cariocas passaram a criar ratos em viveiros , depois matá-los e vendê-los para o governo.
Havia comércio varejista de pequenos criadores e os grandes atacadistas.
Todos comercializavam os ratos, seja como atravessadores ou produtores vendendo direto ao governo.
Chegou ao ponto de falsificarem ratos com papelão, cera e pedaços de couro para enganar os funcionários do governo.
A solução foi extinguir a recompensa financeira. No período de quatro anos cerca de 1, 6 milhão de ratos foram comprados e incinerados.
Mesmo com as fraudes, a ação combinada com uma forte limpeza urbana ajudou a reduzir a peste bubônica na cidade.
Gestores públicos por mais bem intencionados que sejam , deveriam admitir que os programas sociais , podem gerar artificialidades alterando a essência do projeto.
Algo que deveria ser bom para a sociedade se transforma em negócio lucrativo de interesse individual e privado perdendo sua essência no coletivo.
Atualmente o Programa Bolsa Família é o maior exemplo de ” Efeito Cobra” em nosso país.
Veja os números :
Nos últimos 20 anos, o número de beneficiários saltou de 11 milhões para 19 milhões de beneficiários inscritos, um aumento de 75% .
No mesmo período, a população brasileira aumentou de 182 milhões para 214 milhões.
Aumento de 17% (fonte IBGE e MDS – Ministério de Assistência Social e Combate à Fome).
Resultado:
Em 20 anos, ao invés de reduzir o número de beneficiários, o contingente quadruplicou em relação ao crescimento populacional.
No ” Efeito Cobra”, a iniciativa é sempre a melhor possível, entretanto são engolidas por falta de compreensão da realidade de quem faz a gestão ou outros interesses.
São erros de avaliação da burocracia estatal que não leva em conta a natureza humana e seus interesses privados de rápido retorno.
Conclusão:
O que seria para ser investimento para reduzir a pobreza, se transformou em gastos para aumentar o problema.
Lembra de algum outro” Efeito Cobra” vigente em nosso país ?
Rogério Pons da Silva
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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