Sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Por Redação O Sul | 26 de fevereiro de 2026
Serviço deve ser finalizado ainda em março deste ano, no Canal Rota das Balseiras.
Foto: O SulQuase dois anos após a enchente de maio de 2024, Eldorado do Sul vive um momento histórico. Pela primeira vez, o município começou a colocar em prática o plano de dragagem para navegação do Canal Rota das Balseiras, trecho do Lago Guaíba próximo ao bairro Sans Souci. Com investimento da prefeitura de R$ 5,2 milhões, o projeto, após finalizado, deve retirar os sedimentos do fundo das águas e, desta forma, possibilitar a instauração de uma rota de Catamarã, de modo a estabelecer uma ligação direta entre a cidade e Porto Alegre.
Em 2024, Eldorado foi um dos municípios gaúchos mais atingidos pela enchente. As águas avançaram sobre todo o perímetro urbano, causando impacto em cerca de 30 mil habitantes. Agora em 2026, a iniciativa permite que uma nova etapa de reconstrução e prevenção seja realizada. Segundo a prefeita da cidade, Juliana Carvalho (PSDB), a dragagem do canal garante a ampliação da segurança da população e fortalece a resiliência climática.
“As grandes obras de proteção estão se desenvolvendo, estão na fase de projetos e atualização dos anteprojetos para ir para licitação de projeto executivo e obra. Mas, enquanto elas não acontecem, a gente precisa ter rotas de resiliência para chegar e sair da cidade”, declara.
Essa dragagem começou a ser desenvolvida em dezembro de 2025, após a aprovação do projeto desenvolvido pela prefeitura. As obras, que estão sendo fornecidas pela iniciativa privada, devem ser finalizadas ainda em março deste ano. Com a limpeza e retirada dos sedimentos, a atenção municipal será destinada a desenvolver um projeto de linha de Catamarã. A intenção é facilitar a entrada e saída da cidade, aumentando o potencial econômico da região, assim como gerando emprego e renda e, sobretudo, possibilitando a criação de uma rota segura de fuga, em caso de novos eventos climáticos extremos.

“Essa dragagem, além de ser uma obra importante para o município em relação ao desenvolvimento, também coloca Eldorado no mapa hidroviário e possibilita uma alternativa de transporte, porque esse foi um grande problema aqui, na enchente de 2024”, afirma a prefeita. Segundo Letieli Souza, pedagoga e patrona do Piquete Costaneira, local utilizado como ponto de arrecadação de doações durante a inundação, a possibilidade de um novo meio de locomoção será positiva para os moradores da localidade. Para ela, a principal justificativa é a baixa frequência de linhas de ônibus que conectem os municípios.
“Eu acredito que se tudo for feito certinho e dragar o canal que tem que ser dragado, vai ser muito bom para a gente. Hoje, a gente conta com meia dúzia de ônibus e os horários são muito ruins. E quando acontece alguma coisa, um acidente, a gente fica trancado, sem ter como vir embora, sem ter outro meio”, afirma Letieli.
Apesar de trazer benefícios, moradores cobram outras prioridades
Embora a dragagem ofereça potencial econômico e integração regional, parte da população cobra prioridade para outras demandas na agenda municipal. Os moradores da região acreditam que somente a dragagem em canais navegáveis não garante segurança plena contra novos eventos climáticos extremos.
Este é o caso do grupo de voluntários que compõe o SOS Sans Souci. Formados de maneira espontânea, os integrantes se organizaram, em meio à enchente de 2024, para resgatar famílias ilhadas, assim como animais, e distribuir donativos. Atualmente, a equipe defende que o principal motivo para as cheias recorrentes é o assoreamento do Lago Guaíba, e que ações mais efetivas devem ser realizadas para combater esse verdadeiro problema.
Quando questionados sobre o que deveria ser realizado para solucionar a situação em Eldorado do Sul, a resposta dos quatro membros foi a mesma: desassorear as águas com urgência. De acordo com o aposentado Ederaldo Sperb, não há outra alternativa e a demora na realização do serviço coloca o município em perigo. “Enquanto não desassorearem, o problema vai continuar e, paulatinamente, ano após ano, isso se repete, com mais gravidade”, declara Sperb.
Ao defender linha de pensamento semelhante, o pintor e fundador do SOS Sans Souci, José Carlos Souza da Silva Filho, também não enxerga outras possibilidades. “Tem que desassorear, não tem o que fazer. Tirar a terra e botar pro lado não adianta nada. Vai vir uma chuva, vai vir a correnteza e vai voltar para o buraco de novo. Simplesmente tem que desassorear o rio. Só o desassoreamento vai resolver a situação”, explica José.

O grupo também questiona as obras recentes de dragagem de canais navegáveis, que, segundo eles, não trariam benefícios diretos para quem vive na região. “Esse processo vai ser mais positivo para o pessoal do condomínio Ponta da Figueira, que terá melhor acesso ao novo meio de transporte. Para nós aqui do bairro não vai mudar nada. Na questão das enchentes também não muda nada”, declara o marceneiro Roni Lima, integrante do SOS.
Segundo os voluntários, há reivindicações antigas ignoradas pelo poder público, como melhorias de acesso à cidade e revitalização das áreas de lazer, que ficam no entorno da Orla do Guaíba de Eldorado. “A gente pede há mais de oito anos aqui uma rampa para nós acessarmos os nossos barcos e a rampa ainda não foi fornecida”, relembra Roni. Enquanto as reivindicações não são ouvidas, os problemas cotidianos da população seguem sem soluções.
De acordo com a prefeitura do município, o serviço solicitado pelo grupo ainda não foi realizado porque depende de licença ambiental, que está em tramitação. “Por enquanto, a legislação ambiental só permite fazer dragagem de canais navegáveis, que é o que começamos a fazer. Essa dragagem e desassoreamento, que é uma grande obra de resiliência e que tem apelo popular para ser feita, se trata da retirada de sedimentos de toda a extensão do Guaíba, não só em canais navegáveis. Mas, ela ainda não tem licença ambiental para acontecer e está em processo de tramitação”, declara a prefeita.
Você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!