Domingo, 08 de fevereiro de 2026
Por Redação O Sul | 7 de fevereiro de 2026
Portugal terá neste domingo (8) um segundo turno presidencial histórico, o primeiro em 40 anos, com pesquisas apontando para uma “vitória confortável” de António José Seguro, de centro-esquerda, sob o ultra direitista, André Ventura. Ainda assim, analistas avaliam que o pleito terá um peso político que vai além do resultado final, pois funcionará como um teste crucial para medir o grau de consolidação e os limites da extrema direita no sistema político português.
No primeiro turno, Ventura, líder do partido de extrema direita Chega, obteve 23,5% dos votos e ficou em segundo lugar, superando candidatos tradicionais da centro-direita, inclusive o nome apoiado pelo partido do primeiro-ministro Luís Montenegro, enquanto Seguro, do Partido Socialista, liderou com 31,1%. Segundo especialistas, o desempenho do Chega rompeu uma tradição de alternância entre candidaturas para presidente de centro-direita e centro-esquerda e ampliou significativamente a visibilidade nacional do partido.
A campanha do segundo turno, porém, evidenciou os limites da candidatura de Ventura. Seu discurso radical levou partidos da centro-direita a declarar apoio a Seguro, dividindo a direita. Uma pesquisa do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (Cesop), da Universidade Católica Portuguesa, divulgada na quarta-feira, mostra Seguro com 67% das intenções de voto, contra 33% de Ventura.
Ainda assim, especialistas destacam que a importância central da eleição está menos em quem vencerá e mais na margem da derrota do candidato da extrema direita. Um resultado robusto poderia reforçar a legitimidade política do Chega no Parlamento, onde o país vive hoje sob um governo minoritário de centro-direita.
“O ponto mais importante é se ele consegue ter mais votos que o principal partido centro-direita do primeiro-ministro Montenegro teve nas eleições legislativas”, afirma António Costa Pinto, professor da Universidade Lusófona de Lisboa. “Isso indicará que ele poderá continuar crescendo eleitoralmente, mesmo que ele perca, ele ficará com uma legitimidade política grande”.
Segundo o professor, uma votação na faixa entre 30% e 35% sinalizaria que Ventura conseguiu mobilizar parte do eleitorado tradicional da centro-direita, o que poderia ser explorado estrategicamente pelo Chega para ampliar sua influência política e pressionar a agenda legislativa. “Ventura pode perder a presidência, mas ainda assim sair como um vencedor à direita”, resume.
Nesse sentido, o segundo turno também funciona como um termômetro do apoio do eleitorado de direita ao Chega, sobretudo porque o próprio Ventura já insinuou que sua candidatura presidencial tem como objetivo principal medir forças para uma futura disputa pelo cargo de primeiro-ministro. O partido vem crescendo eleitoralmente muito rapidamente nos últimos 3 anos, sendo atualmente o segundo partido mais forte do parlamento, impulsionado sobretudo por uma retórica anti-imigração.
“Parte do interesse dos resultados eleitorais de domingo será perceber precisamente qual a expressão da rejeição do eleitorado português por essas ideias extremistas”, diz José Tomaz Castello Branco, professor no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica de Portugal. “Claramente este partido tem capitalizado este tema, explorando medos e ansiedades, como tem sido característico da extrema-direita europeia. Note-se, porém, que, no quadro europeu, Portugal chega tarde, no sentido em que é um dos últimos países europeus a assistir a este fenômeno do crescimento da extrema-direita.”
O avanço do Chega alimenta receios de que um fortalecimento adicional do partido se traduza em um ambiente político mais hostil à imigração. Embora Seguro adote um discurso moderado sobre o tema, o cargo de presidente em Portugal é majoritariamente cerimonial. Na prática, o Chega poderia usar um bom desempenho eleitoral para pressionar o Parlamento por políticas migratórias mais duras.
A reta final da campanha ganhou um fator extra de incerteza após uma forte tempestade provocar inundações, deslocar milhares de pessoas e paralisar a campanha em várias regiões, levando alguns municípios a adiar a votação. Analistas avaliam que o mau tempo pode elevar a abstenção, o que tende a prejudicar a candidatura de Seguro.
“A tempestade deve reduzir o fluxo às urnas junto da população mais idosa, uma faixa etária que mostra uma preferência significativa por Seguro”, diz Castello Branco. Sua potencial abstenção pode ter um impacto assinalável na distribuição dos votos expressos e, também, acabar por beneficiar Ventura.”
Esse cenário também inclui parte do eleitorado de centro-direita que, embora orientado por suas lideranças a votar em Seguro, pode optar por não comparecer. Ventura, por sua vez, conta com uma base eleitoral menor, porém altamente mobilizada.
“Depois do último debate entre os dois candidatos, alguns estudos de opinião apontam para uma quebra na mobilização do eleitorado de Seguro que aparece associada a um aumento na porcentagem de votos brancos ou nulos. Estas tendências são reforçadas pela aparente firmeza do eleitorado de Ventura”, diz Castello Branco. “Isso pode tornar o resultado final imprevisível.” As informações são do jornal Valor Econômico.
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