Terça-feira, 03 de novembro de 2026
Por Redação O Sul | 2 de novembro de 2026
Em 2024, Donald Trump voltou à Casa Branca com um peso extra nas malas: mais de 17 milhões de votos latinos, 45% do total, bem mais que os 30% obtidos em 2020 e dos 28% de 2016. Os republicanos acreditavam ter finalmente cativado um dos eleitorados mais fiéis aos democratas. Em dois anos de governo, no entanto, o presidente conseguiu dilapidar esse capital político graças à repressão a imigrantes e às deportações em massa.
O Migration Policy Institute estima que o Departamento de Segurança Interna (DHS) realizou 980 mil deportações – e entre 310 mil e 1,5 milhão de pessoas se “autodeportaram” (estrangeiros que deixaram os EUA voluntariamente).
Uma mulher idosa, católica e ativista se tornou figura-chave na defesa da comunidade latina em Pittsburgh, na Pensilvânia, em meio a ações consideradas excessivas do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) durante o governo Trump.
A irmã Janice Vanderneck, fundadora da Casa San José, trabalha desde 2013 com o auxílio à comunidade latina. A associação começou fornecendo apenas aulas de inglês e atividades para jovens, mas passou a oferecer assistência jurídica, além de uma equipe que documenta as ações do ICE após a volta de Trump à Casa Branca.
“A forma como o nosso país trata os imigrantes vai contra a doutrina católica”, afirma a irmã Janice, que recebeu a reportagem do Estadão em sua casa. “O governo está humilhando os imigrantes, colocando-os sob custódia e deportando os latinos, às vezes para países da África.”
A organização foca nessa comunidade por conta da proximidade da ativista com a América Latina. Ela foi missionária em diversos países, incluindo o Brasil, e fala português e espanhol. A Casa San José é uma das várias organizações que tentam auxiliar imigrantes, independentemente da situação legal, em meio à política linha-dura de Trump e à atuação do ICE.
O trabalho da irmã Janice é amplamente conhecido na cidade e elogiado por políticos. “Ela é muito durona. Eu a admiro muito”, disse Kate Garfinkel, líder do Partido Democrata no condado de Allegheny, que tem Pittsburgh como sede.
A associação fundada pela irmã Janice procura garantir custódias temporárias para crianças que tiveram seus pais deportados. A Casa San José também criou um grupo de defesa comunitária que realiza treinamentos com imigrantes latinos com o objetivo de prepará-los para uma possível abordagem de agentes do ICE.
“Nós temos um grupo de voluntários que visita os centros de detenção e tenta descobrir mais informações sobre quem foi preso”, explica a freira. A ativista diz que a Casa San José procura ajudar com consultas jurídicas gratuitas para que a família de quem foi detido tenha ciência das chances de seu parente ser libertado.
A irmã Janice destaca que a Casa San José prioriza a ajuda a imigrantes latinos que não falam inglês. Segundo ela, pessoas oriundas de México, Guatemala e El Salvador estão entre as que mais procuram a associação, mas o número de venezuelanos e brasileiros aumentou nos últimos anos, principalmente dos Estados de Minas Gerais e Goiás.
O foco é auxiliar aqueles que ainda não são cidadãos americanos. A organização não leva em consideração o status legal. Durante a entrevista, a freira questionou a forma como o governo faz essa classificação. “Trump equipara pessoas que cruzaram a fronteira ilegalmente com imigrantes que receberam permissão para entrar e dar prosseguimento a um pedido de asilo”, disse.
A ativista destaca que as pessoas que tiveram seus pedidos de asilo aceitos recebem uma autorização de trabalho temporária e um número de Seguro Social. “O ICE não reconhece nada disso. Muita gente que pensava que estava fazendo tudo certo se surpreende ao ser detida”.
Caso um imigrante preso pelo ICE tenha seus documentos de asilo em dia e não possua antecedentes criminais, é possível trabalhar pela saída da prisão. “Se essas pessoas conseguirem pagar por advogados de imigração, elas podem sair. Nós ajudamos com assistência financeira e em alguns casos até assistência jurídica pró bono, mas não há garantias.”
A atuação do ICE em Pittsburgh levou à criação de uma ala dentro da associação chamada de “Equipe de Resposta Rápida”. Esse grupo é composto por voluntários que podem ser chamados por imigrantes via telefone para acompanhar batidas do ICE.
“Recebemos ligações de que o ICE está realizando batidas na rua ou na porta de alguém e enviamos voluntários o mais rápido possível”, diz a ativista. “Esses voluntários não têm permissão para interferir na detenção, mas podem registrar a situação com o celular – algo legalmente permitido – e fazer observações.”
A intenção é obter o máximo possível de informações sobre a pessoa que está sendo detida e descobrir para onde será levada. Além da Casa San José, outras organizações, como a PA United, também possuem equipes de fiscalização.
Desde o início do governo Trump, o ICE declarou que o objetivo da organização não é deportar todos os imigrantes, mas apenas os que estejam nos EUA de forma ilegal, com prioridade para os imigrantes que tenham antecedentes criminais. Mas, com as cotas estipuladas por Trump, qualquer um está em risco. O ICE organiza voos para diversos países da América Latina, incluindo o Brasil.
O momento aumentou a sensação de medo na comunidade latina. Muitas pessoas, incluindo cidadãos americanos, não querem sair na rua por conta do ICE e participam da Casa San José por videoconferência. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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