Quarta-feira, 01 de abril de 2026
Por Redação O Sul | 13 de julho de 2017
Duas vacinas contra zika, ainda em fase de testes, foram capazes de proteger os fetos de fêmeas de camundongos grávidas infectadas pelo vírus. Resultados do experimento, que teve a participação de pesquisadores do Instituto Evandro Chagas, do Pará, foram publicados nesta quinta-feira (13) na revista especializada “Cell”. A proteção dos fetos contra o zika é um dos desafios que a ciência tem enfrentado no contexto da epidemia de microcefalia que afetou o Brasil a partir do final de 2015, daí a importância da conclusão do estudo. O vírus da zika aumenta o risco do nascimento de bebês com microcefalia e outros problemas de desenvolvimento quando as mães são infectadas durante a gestação.
A pesquisa, que também envolveu pesquisadores da Universidade de Washington, da Universidade do Texas e do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) dos Estados Unidos, avaliou dois tipos diferentes de vacinas de zika experimentais: uma vacina feita a partir de RNA mensageiro modificado, desenvolvida pela empresa Moderna Therapeutics, e uma vacina de vírus vivo atenuado, desenvolvida em parceria entre o Instituto Evandro Chagas e a Universidade do Texas. As duas candidatas a vacina foram aplicadas em dois grupos de fêmeas de camundongos. Um outro grupo recebeu um placebo em vez da vacina. Em seguida, as fêmeas cruzaram com machos e as grávidas foram infectadas com a cepa africana do vírus da zika.
Os fetos das fêmeas que receberam as vacinas experimentais não apresentaram sinais de infecção pelo vírus da zika, diferentemente do que ocorreu com os fetos das fêmeas que receberam placebo. Enquanto o vírus levou a lesões graves na placenta e mortes de fetos nas fêmeas não vacinadas, os fetos das fêmeas imunizadas não apresentaram sinais de RNA de zika, o que indica que as duas candidatas a vacina têm potencial de proteger os bebês dos danos relacionados ao vírus. Vários grupos ao redor do mundo estão em busca de uma vacina contra o vírus da zika. Algumas candidatas já estão sendo testadas em humanos, mas nenhuma recebeu o registro até o momento.
Direitos humanos das brasileiras
A epidemia de zika e a explosão de casos de microcefalia e outras malformações em bebês de grávidas atingidas pela doença expôs antigos problemas de direitos humanos que as mulheres e meninas brasileiras enfrentam, além de trazer novos desafios neste campo para elas, a sociedade e o Estado, aponta relatório publicado hoje pela organização não-governamental HRW (Human Rights Watch).
Intitulada “Esquecidas e desprotegidas: O impacto do vírus zika nas meninas e mulheres no Nordeste do Brasil”, a publicação lembra também que as condições que alimentaram o surto no país persistem, deixando a porta aberta para novas epidemias não só de zika como de outras doenças transmitidas por mosquitos, entre elas dengue, chicungunha e febre amarela.
Amanda Klasing, pesquisadora sênior da Divisão de Direitos da Mulher da HRW e coautora do relatório, destaca que o surto ajudou a colocar em evidência o problema histórico de falta de saneamento básico no Brasil, especialmente nas comunidades de baixa renda. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde e do próprio governo federal citados na publicação, mais de um terço da população brasileira tem fornecimento de água intermitente, enquanto 3,8 milhões de pessoas não têm acesso à água potável, o que as obriga a armazenar água em tonéis, baldes e outros recipientes que se tornam criadouros de mosquitos.
Além disso, apenas 50% dos brasileiros moram em lares conectados a sistemas de esgotamento sanitário, e menos da metade dos rejeitos coletados são tratados no país. E a situação no Nordeste é ainda pior, com menos de um quarto da população ligada às redes de esgoto, do qual só 32% é tratado.
“Temos que lembrar que o acesso à água e saneamento é um direito humano fundamental que o Brasil não está provendo aos seus cidadãos “, diz Amanda. “E embora a falta de saneamento tenha contribuído para a epidemia ao promover a proliferação de mosquitos, as estratégias de prevenção se focaram no controle dos vetores no ambiente doméstico, deixando de fora as condições externas que continuaram e continuam ideais para a reprodução dos insetos. Isto impôs mais um fardo nas mulheres e meninas, já que elas são vistas como as responsáveis por este controle nos lares, que se tornou apenas mais uma coisa que elas têm que fazer em casa, demandando tempo e trabalho.”
Direitos reprodutivos
Amanda, no entanto, acrescenta que é no campo da saúde e dos direitos reprodutivos que a epidemia deixou mais claros os obstáculos ao pleno reconhecimento e cumprimento dos direitos humanos das mulheres e meninas brasileiras. Diante disso, a publicação traz diversos relatos de casos de mulheres que se submeteram a abortos clandestinos ou tomaram remédios para abortar, tanto de forma voluntária quanto forçadas por parceiros e parentes, e profissionais de saúde que atenderam vítimas de complicações nestes procedimentos, que as estimativas mais recentes apontam terem somado cerca de 500 mil em 2015. “Elas estão desesperadas e tentam qualquer coisa, então usam métodos inseguros (para abortar)”, disse aos pesquisadores Leila Katz, obstetra de emergências em Recife.
“As mulheres e meninas brasileiras enfrentam barreiras em seus direitos e saúde reprodutivos, como as duras leis sobre o aborto e a pouca informação e acesso a iniciativas de planejamento familiar e métodos contraceptivos no sistema público de saúde”, considera Amanda. “Esperamos que com a epidemia aumente a pressão pública para revisão das leis sobre o aborto e o atendimento de outras demandas nesta área, como acesso a métodos contraceptivos mais confiáveis, como os dispositivos intrauterinos (DIU). Isto, porém, vai requerer treinamento dos profissionais de saúde e encorajamento para que forneçam estes métodos, já que é mais rápido e fácil prescrever uma pílula.” (AG)
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