Terça-feira, 20 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 19 de outubro de 2026
A economia dos Estados Unidos pode estar mais frágil do que aparenta. Apesar dos sinais de resistência da atividade, analistas de Wall Street começam a identificar problemas que vão da desaceleração das vendas de pequenas empresas à fraqueza do mercado de trabalho. A inflação persistente e os juros elevados acrescentam outro risco: até mesmo os investimentos bilionários em inteligência artificial (IA), um dos motores do crescimento americano, podem perder força.
O crescimento mensal do emprego nos EUA ficou em torno de 40 mil vagas, em média, no último ano, mas foi praticamente nulo quando excluído o setor de saúde, segundo Mark Zandi, da Moody’s Analytics. Para o economista, esse quadro deixa a economia americana vulnerável a uma deterioração mais ampla.
O índice de confiança das pequenas empresas da Federação Nacional de Empresas Independentes (NFIB, na sigla em inglês) caiu de 98,7 pontos em agosto para 97,9 em setembro.
“As outras principais pesquisas empresariais também sugerem, de modo geral, que a atividade econômica perdeu um pouco de força no fim do terceiro trimestre, provavelmente pressionada pela recuperação dos preços globais da energia”, afirmam Samuel Tombs e Oliver Allen, da Pantheon Macroeconomics. Os economistas também observam que apenas 411 empresas responderam à pesquisa, ante cerca de 1.200 há pouco mais de uma década.
A gestora de investimentos Bespoke Investment Group identificou um sinal preocupante na pesquisa da NFIB: um número crescente de pequenas empresas aponta a fraqueza das vendas como seu “principal problema”.
Entre todas as opções apresentadas na pesquisa, “o problema que você não quer ver em primeiro lugar é a fraqueza das vendas”, afirmou a gestora.
“Durante contrações econômicas anteriores, vimos esse indicador subir acentuadamente. Embora ainda esteja em um nível relativamente baixo, ele voltou a apresentar alta recentemente.”
Até o boom da inteligência artificial pode estar ameaçado pelos juros elevados, alerta economista
Zandi, da Moody’s Analytics, reforça a principal preocupação no mercado de trabalho.
“As contratações estão estagnadas, o número de horas trabalhadas é muito baixo e, embora a taxa de desemprego continue baixa, isso reflete, em parte, a queda na participação da população no mercado de trabalho [devido ao aumento das aposentadorias e à baixa imigração]”, afirmou Zandi recentemente a Allison Nathan, do Goldman Sachs.
Zandi também teme que os juros mais elevados, tanto os definidos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) quanto os exigidos pelos investidores no mercado de títulos, comprometam os investimentos em inteligência artificial.
“Os investimentos em infraestrutura de IA também estão vulneráveis, já que o custo mais elevado do capital encarece os projetos, enquanto a queda no valor de mercado das empresas dificulta a captação dos recursos necessários para sustentar o ritmo atual de expansão da infraestrutura de inteligência artificial”, afirma.
“Se os juros permanecerem nos níveis atuais, ou acima deles, por mais um ou dois trimestres, a IA poderá se tornar o ponto fraco da economia.”
Inflação dispara: “Duas guerras precisam acabar antes que tenhamos algum alívio”
Esse cenário de juros elevados por mais tempo parece estar se concretizando.
O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos registrou alta de 3,7% em setembro, ante 3,4% no mês anterior, superando as expectativas dos analistas. Diante disso, o Fed pode se sentir pressionado a elevar novamente os juros.
“A inflação está a todo vapor”, afirmou Jamie Cox, do Harris Financial Group, em um e-mail enviado à Fortune.
Segundo Cox, o Fed cometeu um erro ao classificar como transitória a inflação durante a pandemia de covid-19 e agora parece prestes a repetir o equívoco, desta vez na direção oposta, ao avaliar os efeitos do choque na oferta de energia.
“Está absolutamente claro de onde vem a pressão inflacionária, mas duas guerras precisam terminar antes que tenhamos algum alívio. O Federal Reserve cometeu o erro de classificar a inflação da época da Covid como transitória e, agora, parece prestes a cometer o mesmo erro, só que no sentido inverso, ao avaliar o choque na oferta de energia.”
Tiffany Wilding, economista da gestora Pimco, demonstrou preocupação semelhante.
“Esse não é um dado favorável para o Federal Reserve, cujos dirigentes vinham sinalizando que provavelmente não elevariam os juros no fim deste mês. Após a divulgação do CPI, o mercado passou a atribuir uma probabilidade de 50% a uma nova alta dos juros em outubro”, afirma. (Com informações do portal Estadão)
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