Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 19 de agosto de 2018
A analista de call center Vera Lucia Gomes se casou aos 42 anos, mas só bem depois o relógio biológico falou mais alto. “Passamos 11 anos tranquilos, sem pensar em ter filhos, até que chegou o momento em que me dei conta de que a mulher tem ‘prazo de validade’ para ser mãe. E, se eu quisesse, teria de ser agora.”
Com a ajuda de uma clínica especializada, ela e o marido, o administrador de empresas Jefferson Gomes, de 45 anos, engravidaram de um casal de gêmeos na primeira tentativa – o que é incomum na reprodução assistida. “Eu não pensava em adotar. Queria ficar grávida, sentir meus filhos crescerem dentro de mim, o meu sangue alimentando os bebês.”
Ela diz ter sido alertada pelo médico dos riscos aumentados de pré-eclâmpsia, de diabete gestacional e de parto prematuro, mas afirma que a gravidez foi tranquila. “Fui acompanhada por outros médicos, fazia exames de rotina e Anthony e Valentina nasceram saudáveis com 36 semanas de gravidez.” Os bebês ficaram 20 dias na UTI para ganho de peso.
Hoje com 2 anos e 3 meses, eles são cuidados por Vera, que deixou o emprego para se dedicar aos filhos. O peso da idade, diz, não atrapalha. “Faço tudo em dose dupla: dou banho, alimento, levo à escola, brinco. Tudo isso com pique total”, conta.
Dados do Ministério da Saúde apontam que entre 2007 e 2016 o total de mães após os 50 cresceu 37% – de 261 para 358 (média de quase um parto por dia). Segundo José Hiran Gallo, presidente da Câmara Técnica de Reprodução Assistida do CFM (Conselho Federal de Medicina), o número pode até parecer pequeno, mas mostra tendência de aumento de casos de busca pela maternidade tardia.
Por um curto período, o CFM chegou a vetar processos de reprodução assistida para mulheres com mais de 50, mas essa proibição caiu em 2015 diante do aumento da demanda. “A resolução sempre teve como foco preservar a saúde da mulher, nunca prejudicar. Mas fomos percebendo que as mulheres estão cada vez mais saudáveis e vivendo por mais tempo. Por que tirar delas a chance de serem mães?”, disse Gallo.
Depois disso, diante do aumento da procura, o CFM pede que mulheres interessadas nesses tratamentos assinem termo de consentimento, em que se dizem cientes dos riscos maiores de problemas na gestação. “A melhor idade para engravidar é entre 17 e 25 anos, mas sabemos que isso ocorre cada vez menos. Uma gravidez natural após os 50 anos é raríssima e improvável. Por isso existem as técnicas de reprodução assistida”, diz.
Útero saudável
O maior entrave para engravidar após os 50 é com relação a óvulos – quanto mais velha a mulher estiver, pior a qualidade do óvulo. Além disso, com a menopausa ela para de produzi-los, o que torna remota a chance de gravidez natural. Entre as alternativas estão congelar óvulos quando for mais jovem ou recorrer à ovodoação (quando recebe o óvulo de doadora mais jovem, com características físicas similares).
Segundo o especialista em reprodução humana Alfonso Araújo Massaguer, o útero não envelhece na mesma velocidade que os óvulos, portanto, se a mulher tiver útero saudável e saúde em dia, suas chances de engravidar giram em torno de 60%. “Se a mulher recorrer à ovodoação, por exemplo, os riscos de abortamento e síndrome de Down são baixíssimas”, diz. Mas o médico reforça que ainda há os riscos relacionados ao final da gravidez, como diabete, hipertensão e parto prematuro.
A corretora de imóveis Vânia Aparecida de Souza, de 52 anos, já era avó e tinha dois filhos do primeiro casamento quando decidiu ser mãe de novo, com o atual marido, o pastor Jeovan Souza, de 48. Como não estava em menopausa, buscou ajuda na reprodução assistida – e conseguiu na primeira tentativa.
Vieram gêmeos: Jeovan Isaque e Sara Raquel, hoje com 2 anos e 3 meses. Apesar de ter pressão alta, ela diz que foi monitorada e teve gestação tranquila. “Cuido e brinco com eles, mas confesso que não tenho o mesmo pique de anos atrás. Mas, mesmo assim, não tenho nenhum arrependimento” diz. Segundo ela, não há incômodo quando perguntam se é avó das crianças. “Respondo que sou a mãe e pronto. Não me abala.”
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