Sábado, 10 de janeiro de 2026
Por Redação O Sul | 17 de dezembro de 2025
O bloqueio naval a “navios petroleiros sancionados” que saem ou se dirigem à Venezuela, anunciado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, na noite de terça-feira, impõe uma escalada adicional à sua campanha de pressão sobre Caracas. A medida, divulgada pelo presidente quase uma semana após a apreensão de um petroleiro na costa venezuelana, pode impactar exponencialmente a economia do país, que há anos tem mais de 90% de sua receita dependente da exportação de petróleo bruto. No entanto, as ameaças e imposições do governo americano parecem não afetar os negócios da americana Chevron, que tem permissão para operar no país apesar das sanções internacionais impostas por Washington.
Isolada internacionalmente, a Venezuela é obrigada a usar navios “fantasmas”, que carregam petróleo bruto venezuelano a um preço muito abaixo do valor de mercado, para contornar as sanções financeiras. Diante dessas restrições, Caracas garante a continuidade das exportações por meio do mercado clandestino. Entre o início de setembro e a metade de dezembro, a Venezuela exportou quase 800 mil barris por dia, cerca de 81% deles com destino à China, 17% para os EUA e cerca de 2% para Cuba, segundo dados do TankerTrackers.com.
A apreensão do petroleiro Skipper na semana passada, que transportava petróleo da estatal venezuelana PDVSA estava ligada ao Irã e ao Hezbollah, segundo autoridades americanas. A ação, qualificada como “roubo descarado” e “pirataria” por Caracas, já impacta significativamente a receita do regime chavista. Desde então, sete outros petroleiros em Porto José e no Porto de Amuay, na Venezuela, estão ociosos há quase uma semana, de acordo com o rastreador de navios Samir Madani no TankerTrackers.com, deixando o país com barris à venda por receio de serem alvos de uma nova interceptação dos Estados Unidos.
Ao anunciar o bloqueio, Trump também afirmou que a Venezuela está “completamente cercada pela maior frota já reunida na história da América do Sul” e que o contingente militar americano no Caribe “só vai aumentar” até que a Venezuela devolva “aos Estados Unidos da América todo o petróleo, terras e outros ativos que nos roubaram anteriormente”. Especialistas defendem ainda que, ao atingir navios sancionados, os EUA poderiam estar contornando proibições de bloqueios econômicos sob o direito internacional, exceto em resposta a ataques armados.
O número de navios à espera para atracar nos portos venezuelanos caiu de cerca de 45, antes da apreensão, para cerca de uma dúzia na terça-feira, de acordo com dados de tráfego marítimo. O último bloqueio do tipo imposto pelos EUA foi em 1962, ordenado pelo presidente John F. Kennedy para impedir novas entregas de mísseis soviéticos a Cuba.
O anúncio ocorre ainda num momento em que deputados e senadores americanos estão prontos para votar resoluções de poderes de guerra da Câmara e do Senado para exigir autorização do Congresso para uma ação militar do governo contra a Venezuela.
A ofensiva contra a economia venezuelana representa, segundo especialistas, uma alternativa para seguir pressionando Maduro a deixar o poder e evitar ações militares em terra no país, ainda que Trump tenha ameaçado realizá-las em mais de uma ocasião. Diante da complexidade e das dificuldades que permeiam uma invasão dos EUA à Venezuela, Washington parece ter recalculado a rota para tentar derrubar o regime chavista por meio de um dos pontos mais sensíveis do governo venezuelano: o agravamento acelerado da crise econômica, que se estende há anos e se reflete em outros problemas graves no país, como o aumento da fome e da violência e a degradação da situação humanitária.
Segundo o Wall Street Journal (WSJ), outros superpetroleiros estão se distanciando do país sul-americano desde a apreensão – pelo menos cinco navios foram para portos em outros lugares nos últimos dias. Um deles carregava nafta russa, um diluente que a Venezuela usa para misturar com óleo pesado; os outros estavam vazios, indicando que estavam a caminho de serem abastecidos.
Por outro lado, a Chevron parece não se intimidar pela ofensiva e segue enviando navios para a Costa do Golfo americana. Um dia depois que as Forças dos EUA capturaram o navio Skipper, duas embarcações que transportavam petróleo bruto para a Chevron partiram do Bajo Grande, um porto no Lago Maracaibo da Venezuela, ambos com destino aos Estados Unidos, de acordo com dados do TankerTrackers.com.
Um porta-voz da empresa afirmou que suas operações na Venezuela continuam sem interrupções e em conformidade com a lei. Ao WSJ, ele chamou a presença da Chevron na Venezuela de força estabilizadora para a economia local e dirigiu perguntas sobre a situação de segurança às autoridades dos EUA.
A Casa Branca alega que o petróleo venezuelano seria responsável por financiar cartéis de drogas – declarados como organizações terroristas pelo governo Trump. Segundo acusações do presidente americano, essas organizações criminosas são liderados por Maduro e outras autoridades venezuelanas, responsáveis por articular o envio de drogas deliberadamente aos EUA.
“Há um processo legal para confiscar esse petróleo, e ele será levado adiante”, declarou a porta-voz, Karoline Leavitt após a apreensão do petroleiro Skipper. “Não vamos ficar parados e ver como navios sancionados navegam com petróleo contrabandeado, cujos lucros servem para alimentar o narcoterrorismo de regimes ilegítimos.” As informações são do jornal O Globo e de agências internacionais de notícias.