Segunda-feira, 05 de janeiro de 2026
Por Redação O Sul | 4 de janeiro de 2026
A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos abre um cenário de incertezas para o futuro político da Venezuela. O professor de Relações Internacionais Alexandre Coelho analisou os possíveis desdobramentos desta situação e as implicações geopolíticas para o país sul-americano.
Segundo o especialista, um dos cenários possíveis é a manutenção da estrutura de poder atual, porém com novos protagonistas. “Inicialmente o que se esperava era que Donald Trump indicasse a María Corina Machado ou alguém da oposição venezuelana para assumir o poder, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário”, explicou Coelho. Segundo ele, Trump teria afirmado que Corina “não teria o respeito do povo venezuelano e, portanto, não poderia assumir a presidência da Venezuela”.
Na análise do professor, a Venezuela poderia ter uma face externa representada por Delcy Rodríguez, que estaria em conversação com o governo americano, enquanto internamente a estrutura seria mantida por Diosdado Cabello.
“Nós teríamos uma face externa da Venezuela, que seria a Delcy, e uma face interna estrutural, que seria o Diosdado, mantendo a estrutura de autoritarismo, de ditadura, talvez até pior do que durante o governo Maduro”, avaliou.
Interesses econômicos
O especialista destacou que o interesse pelo petróleo venezuelano parece ser uma motivação central na operação americana. A Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo, com aproximadamente 302 bilhões de barris. “Nós já temos a Chevron lá trabalhando, que possui a autorização do governo americano, explorando petróleo, inclusive para os Estados Unidos”, explicou.
Coelho ressaltou que o discurso de Trump deixou clara a intenção de dar “carta-branca” para grandes empresas de petróleo norte-americanas como a Chevron, Exxon Mobil e ConocoPhillips investirem na Venezuela. “Essas empresas terão carta-branca em primeiro lugar para investir na Venezuela e terá ali, segundo Trump, uma proteção para que elas invistam e reestruturem todo o parque petrolífero venezuelano”, afirmou.
Desafios
O professor manifestou ceticismo quanto à possibilidade de uma administração direta dos Estados Unidos na Venezuela. “Eles não vão ter legitimidade junto ao povo venezuelano para fazer isso”, afirmou, lembrando casos como Afeganistão, Iraque e Líbia, onde intervenções americanas resultaram em caos administrativo.
“Nós temos dois exemplos muito concretos do ponto de vista da história recente que os Estados Unidos não conseguiu, que foi um fracasso total: o Afeganistão e o Iraque em 2003, ou como foi o caso da Líbia”, argumentou Coelho. Segundo ele, o Iraque vive um caos administrativo e a Líbia está fragmentada, comandada por facções, inclusive no que se refere à produção de petróleo.
O especialista também destacou a preocupação com a reação da China, atual maior compradora de petróleo venezuelano. “Trump vai comandar, controlar a torneira do petróleo em relação à China frente a frente com o que a China está fazendo hoje em relação ao controle de exportações de terras raras em relação aos Estados Unidos”, explicou, apontando para um novo capítulo na disputa geopolítica entre as duas potências.