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Política Erika Hilton na Comissão da Mulher expõe divisão na esquerda sobre pauta trans

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Erika Hilton (PSOL-SP) foi eleita para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. (Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)

A reação à direita não surpreendeu ninguém quando a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) foi eleita por pares, com 11 votos a favor e dez em branco, para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. Houve grita generalizada sustentando que Hilton, primeira deputada federal trans junto com Duda Salabert (PDT), não é mulher coisa nenhuma. Até aí esperado, dada a aversão à transgeneridade no grupo.

Mas o desconforto não ficou restrito a esse cercadinho ideológico. Em setores da esquerda, sua eleição também criou divisões. São dissidentes que se dizem alinhadas a pautas progressistas sem deixar de questionar se uma mulher trans deveria liderar o colegiado. A posição majoritária no campo é a de reconhecer mulher trans como mulher.

Um termômetro: comentários num post do ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) classificando a rejeição à presidência de Hilton como transfobia. “Extrema direita, gente? Ao meu redor, um caminhão de mulher de esquerda achando isso um absurdo”, escreveu a psicanalista Ana Luiza Dalcanal.

Letícia Nascimento, que lidera o Sagrado Feminino Real, projeto voltado à “espiritualidade feminista que se pauta na experiência material das mulheres”, também se manifestou: mulheres “críticas de gênero” seriam “hostilizadas” e tachadas de “fascistas de direita” ao “apontar incongruências do transativismo”.

Essa linha argumentativa se ancora em opiniões como a de Reem Alsalem, relatora Especial da ONU sobre violência contra mulheres. Para ela, pode-se adotar uma identidade de gênero diferente da de nascimento, mas isso não implica acesso automático a todos os direitos de “mulheres biológicas”.

Alsalem esteve no Brasil às vésperas do Dia da Mulher, e sua posição provocou repúdio do Conselho Nacional de Direitos LGBTQIA+. Ligado ao governo federal, o grupo mencionou “segmentos sociais radicais que flertam com a transfobia e a demonização de corpos e subjetividades trans” ao criticá-la.

Hilton, em pronunciamento sobre a onda de ataques a ela, disse não ligar para “a opinião de transfóbicos e imbeCIS”. Trocadilho com “cis”, que é quem se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer.

A percepção de que nascer com aparelho reprodutivo feminino é inalienável à condição feminina é muitas vezes vinculada às chamadas radfems, ou feministas radicais.

Mas não são só elas. J.K. Rowling, criadora da série Harry Potter, é notória crítica da pauta trans. No Brasil, a Matria (Associação de Mulheres, Mães e Trabalhadoras do Brasil) defende a “importância do marcador sexo” nesse debate.

“Mulheres são um grupo definido por uma realidade material, o sexo feminino, e muitas das políticas públicas existentes foram construídas justamente a partir dessa realidade”, defende Clarice Saadi, diretora da organização. E correm o risco de serem relativizadas se isso não for levado em conta, segundo ela.

Saadi dá como exemplo a penitenciária feminina do Distrito Federal. “Há 86 pessoas do sexo masculino alojadas no presídio feminino, e as mulheres relatam serem constrangidas e assediadas pelos travestis que foram transferidos para lá com base em uma autodeclaração de gênero”, ela diz, usando sempre o pronome masculino para se referir a esse grupo.

A nova presidente da Comissão da Mulher, na sua visão, não chancelaria um projeto de lei que vete a presença de trans e travestis nesses presídios. Isso é ignorar a “realidade objetiva das mulheres”, diz.

Letícia Nascimento, do projeto Sagrado Feminino Real, vai pela mesma toada. Quando se fala em direitos da mulher, parte-se de “corpos que nascem sob determinadas condições biológicas e que, a partir disso, são socializados em uma sociedade patriarcal para ocupar posições específicas, marcadas por desigualdades estruturais como controle reprodutivo, exploração sexual e doméstica”.

Defensores da liderança de Hilton argumentam que mulheres ditas biológicas não representam automaticamente todas as mulheres, já que experiências variam conforme classe, raça e contexto social. Uma mulher rica pode não vivenciar problemas de mulheres pobres, uma branca os de uma negra etc. Sob essa ótica, a representação política não deve se basear apenas na identidade, mas na capacidade de atuar sobre diferentes realidades.

Autora de “Quando Me Descobri Negra” e colunista da Folha, Bianca Santana vê a psolista como “duplamente qualificada” para o papel: é parlamentar eleita e mulher comprometida com os direitos femininos. Para ela, descredibilizá-la revela transfobia, já que não há impedimento legal ao cargo.

A psicanalista Vera Iaconelli, também colunista do jornal, vai além: ser trans não é ônus, é bônus, porque Hilton “trabalha com uma minoria dentro de uma minoria”. Além de trans, é negra. “Então a gente tem recorte de gênero e de raça. E ela vem de uma origem periférica.” Conseguiria, assim, ter um olhar mais sensível para um grupo tão marginalizado sem desconsiderar mulheres cis e brancas, diz.

A ginecologista Daniela Menezes, idealizadora da Casa Caeté, voltada à saúde da mulher, diz que, “do ponto de vista médico, não existe fundamento para afirmar que uma mulher trans não pode representar mulheres”.

Claro que biologia importa. Ninguém nega a importância do rastreamento do câncer de próstata em uma mulher trans, por exemplo. “Mas essas categorias não foram feitas para definir papel social, identidade ou representação política.”

A categoria feminina tampouco seria homogênea na biologia. “Usar argumentos médicos para definir quem pode ou não pode representar mulheres é uma extrapolação indevida. A medicina descreve corpos, a política organiza os direitos.” As informações são do jornal Folha de S.Paulo.

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