Domingo, 05 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 4 de julho de 2026
Enquanto conduziam negociações de paz com o Irã, os Estados Unidos suspeitavam que Israel planejava matar dois dos principais representantes de Teerã nas conversas diplomáticas, segundo autoridades americanas atuais e ex-integrantes do governo. Washington chegou a mobilizar aliados na região para alertar os iranianos sobre a possível ameaça, temendo que um atentado inviabilizasse as negociações e provocasse uma nova escalada da guerra.
A preocupação se concentrava no ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, e no presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf. Embora Israel já tivesse como estratégia eliminar integrantes da cúpula iraniana desde o início do conflito, autoridades americanas afirmam que a possibilidade de um ataque contra os dois ganhou peso após o início das negociações de cessar-fogo, em abril.
Segundo essas autoridades, os Estados Unidos chegaram a pedir a outros países do Oriente Médio que alertassem Teerã sobre o risco de Israel atingir os negociadores. O objetivo era impedir que uma operação comprometesse as tratativas diplomáticas.
Integrantes do governo americano reconheceram que, durante a fase mais intensa da guerra, Araghchi e Ghalibaf poderiam ser considerados alvos militares legítimos por Israel, que buscava enfraquecer o regime iraniano. Com o avanço das negociações, porém, Washington passou a avaliar que a morte dos dois encerraria qualquer possibilidade de acordo e reacenderia os combates.
A guerra começou em 28 de fevereiro, quando um ataque israelense matou o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, além de outros altos integrantes do governo e das Forças Armadas. A operação foi baseada, em parte, em informações de inteligência fornecidas pelos Estados Unidos.
Enquanto as forças americanas concentravam seus ataques na Marinha e nas unidades de mísseis iranianas, Israel priorizou eliminar integrantes da liderança política e militar do país. Entre os mortos estavam Ali Larijani, principal assessor de segurança nacional do Irã, e Kamal Kharazi, ex-ministro das Relações Exteriores, ambos considerados interlocutores relativamente pragmáticos e envolvidos nas negociações com Washington.
As suspeitas da administração Trump sobre um possível plano israelense para matar Araghchi e Ghalibaf evidenciaram o afastamento entre os objetivos de guerra dos dois aliados. Enquanto os Estados Unidos passaram a priorizar uma solução negociada para o conflito, Israel manteve como meta a derrubada do regime iraniano.
O cessar-fogo inicial de duas semanas, firmado em abril, foi recebido com apoio apenas protocolar pelo governo israelense e gerou críticas dentro do país. Para autoridades israelenses, o acordo interrompia a ofensiva antes que os principais objetivos militares fossem alcançados.
Na avaliação de Israel, a trégua não enfraqueceu de forma decisiva o programa de mísseis iraniano, tampouco provocou a queda do regime ou reduziu a influência de grupos aliados de Teerã na região. Também havia o temor de que o acordo permitisse ao Irã acessar recursos para reconstruir sua infraestrutura sem limitar significativamente seu programa nuclear.
Apesar das divergências, Araghchi e Ghalibaf permaneceram à frente das negociações com os Estados Unidos e outros países da região. Em junho, Washington e Teerã chegaram a um acordo preliminar que previa a reabertura do Estreito de Ormuz à navegação internacional e estabelecia as bases para futuras negociações sobre o programa nuclear iraniano.
A Embaixada de Israel em Washington se recusou a comentar o assunto. Já um funcionário americano afirmou que as conversas entre as delegações continuam e destacou reuniões consideradas produtivas entre o enviado especial Steve Witkoff, Jared Kushner e representantes iranianos no Catar. Segundo ele, o presidente Donald Trump deseja que o processo de paz “siga seu curso”.
Em março, o Wall Street Journal informou que Araghchi e Ghalibaf chegaram a integrar uma lista de alvos elaborada por Israel, mas foram retirados temporariamente enquanto os Estados Unidos buscavam iniciar negociações com o Irã. Um funcionário americano e uma autoridade do Oriente Médio disseram que Washington soube, à época, que ao menos Ghalibaf permanecia na lista e pediu a Israel que evitasse qualquer ataque contra ele.
Segundo autoridades iranianas, Ghalibaf escapou da morte em duas ocasiões: durante a guerra de 12 dias, em junho de 2025, e novamente no conflito deste ano, quando Israel bombardeou um bunker onde altos integrantes do governo participavam de uma reunião secreta. Em ambos os casos, ele foi retirado dos escombros com vida. (Com informações do The New York Times)
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