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Mundo Estados Unidos perderam a “guerra ao ópio” no Afeganistão

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A área de cultivo da papoula no Afeganistão cresceu 37% em 2020 e é uma das principais fontes de renda do Talibã. (Foto: Reprodução)

É novembro de 2017. A câmera de visão noturna mostra um conjunto de ruas em uma cidade da província de Helmand, pólo de cultivo de papoula no Afeganistão. A câmera tenta centrar no alvo antes de os mísseis serem disparados. São nove disparos no total, cada um deles alvejando uma edificação, em uma série de explosões quase simultâneas.

É um exemplo marcante de bombardeios de precisão, que usam algumas das mais caras e avançadas tecnologias militares já produzidas, incluindo um bombardeiro estratégico B-52, um caça F-22 Raptor e um disparador de foguetes M142.

O vídeo desse ataque, no qual oito civis afegãos foram mortos, foi parte de uma série postada online naquele ano pelos militares americanos como evidência do avanço da campanha de bombardeios chamada de “Tempestade de Ferro”.

O objetivo era destruir laboratórios de heroína no âmago do comércio de ópio promovido pelo grupo extremista Talibã – que agora retomou o controle do país – e que já lhe rendia, na época, cerca de US$ 200 milhões por ano. Os bombardeios americanos atingiriam cerca de 200 alvos semelhantes.

No entanto, de acordo com um relatório publicado em abril de 2019 pela unidade de políticas sobre drogas da universidade britânica London School of Economics, a Operação Tempestade de Ferro não teve exatamente o impacto desejado.

O estudo identificou que, apesar de contar com excelentes informações de inteligência, a campanha multimilionária de bombardeios vinha tendo um efeito mínimo sobre o Talibã e sobre as redes de tráfico dentro do Afeganistão.

Dados mais recentes apontam para o crescimento do cultivo de papoula, a matéria-prima do ópio e, por consequência, da heroína, que é uma das principais fontes de renda do Talibã.

Em maio de 2021, uma investigação da Agência da Organização das Nações Unidas contra Crimes e Drogas (Unodc) junto à Agência Nacional de Estatísticas do Afeganistão estimou que a área de cultivo da papoula para ópio cresceu 37% em 2020 em relação ao ano anterior – com 224 mil hectares, essa área de cultivo é uma das maiores já registradas no país e tinha potencial de produzir 6,3 mil toneladas de ópio e gerar lucros ilícitos de US$ 350 milhões.

Reportagem da agência Reuters publicada na semana passada calcula que os EUA tenham gastado mais de US$ 8 bilhões ao longo de 15 anos tentando impedir, por meio de bombardeios e destruição de lavouras, que o comércio de ópio continuasse sendo uma fonte de renda ao Talibã. Mas a estratégia não deu certo: o Afeganistão continua sendo o maior fornecedor de ópio ilícito do mundo, status que deve ser reforçado com a retomada do poder central pelo grupo fundamentalista.

Os bombardeios

O que, então, os americanos estavam atacando naquele bombardeio em 2017? O pesquisador David Mansfield, especialista no tema, fez essa pergunta a si mesmo enquanto assistia ao vídeo do ataque. “Foi bizarro”, ele disse à BBC News em 2019. “Eu estava sentado (na minha casa) no Reino Unido, a milhares de quilômetros de distância, assistindo àqueles ataques inacreditáveis. A tecnologia usada pelos americanos era surpreendente. Esses bombardeios pareciam ter uma ótima precisão, mas eu pensava: qual é o alvo?”

Evidências

Mas Mansfield sabia que, para explicar seu ponto, precisaria de mais provas. Ele acionou a Alcis, uma start-up britânica especializada em análise geoespacial de fatos ocorridos em locais remotos.

Embora as coordenadas tivessem sido apagadas dos vídeos divulgados pelos EUA, foi possível identificar os locais dos ataques por meio de imagens de satélites do Afeganistão e, assim, identificar o que havia acontecido naqueles locais antes dos disparos de mísseis.

A Alcis conseguiu identificar 31 edifícios. De todos os locais examinados, apenas um deles estava, com certeza, produzindo ópio quando foi atingido pelo míssil americano – era uma edificação contendo cerca de 200 barris (e imagens termais mostravam esses barris com a cor branca, indicando que eles estavam quentes e ativamente envolvidos no processo de refinamento de heroína).

Pesquisa de campo

Em seguida, Mansfield reuniu uma equipe de pesquisadores afegãos para entrevistar as pessoas nas comunidades afetadas pelos mísseis americanos. Eles conversaram com donos de laboratórios, operadores e trabalhadores, e também com 450 agricultores em Helmand e outras áreas produtoras de ópio.

As entrevistas indicaram que a inteligência obtida pela Força Aérea americana era, de fato, boa. A maioria dos locais examinados pelos pesquisadores havia sido usado como laboratório de heroína no passado mas – e este é o ponto-chave –, em sua grande maioria, já não estavam mais ativos no momento dos ataques de mísseis.

Os entrevistados disseram que os laboratórios operavam de modo intermitente e que todo o material usado na produção de heroína era removido quando o local ficava fechado. Além disso, era possível montar um novo laboratório com facilidade, em questão de dias.

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