Quinta-feira, 20 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 20 de agosto de 2026
Este mês, em apenas duas semanas, os investidores internacionais retiraram R$ 18,1 bilhões da Bolsa brasileira. É a maior debandada de capital estrangeiro em seis anos, desde março de 2020 — quando o início da pandemia de covid-19 levou temor aos mercados globais. É um forte contraste com o primeiro semestre, pois só em janeiro o fluxo externo havia superado todo o saldo de 2025.
Especialistas avaliam que esse movimento reflete tanto a estratégia de tentar contornar a volatilidade do período eleitoral quanto a busca por retornos maiores em mercados mais atraentes, especialmente aqueles com ações de empresas da área de inteligência artificial (IA), que são basicamente americanas e asiáticas. Com isso, em agosto, até ontem, o Ibovespa acumula queda de 5,71%.
A esse pano de fundo, dizem economistas, soma-se o plano fiscal ainda incerto dos dois principais candidatos.
“Desastre” fiscal
Rafael Winalda, especialista em renda variável do Inter, lembra que a virada começou em abril, com a escalada do conflito no Oriente Médio, o petróleo batendo em US$ 100 e a alta dos juros dos títulos de 10 anos dos Estados Unidos — que tornou o mercado americano, considerado seguro, competitivo frente aos emergentes, de maior risco.
“Diria que, até junho, a saída foi majoritariamente por fatores externos: juros americanos, petróleo e o apelo da tese de IA. A partir de julho, com a proximidade da eleição de outubro, o fator local ganhou peso relativo”, explica Winalda.
Para ele, mais do que o nome do vencedor das eleições, o mercado quer entender o compromisso do próximo governo com o arcabouço fiscal, dado que a dívida pública deve fechar o ano perto de 84% do PIB:
“Enquanto essa clareza não vem, com o cenário incerto global e o risco de inflação no Brasil e mundo afora, entendemos que o estrangeiro ainda fica resistente com todo este cenário.”
Segundo Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e sócio da Jubarte Capital, o receio com a valorização das ações de IA nos EUA — quando se temeu a formação de uma bolha — levou investidores a buscar alternativas, o que beneficiou o Brasil.
Depois que as empresas do setor divulgaram resultados sólidos no segundo trimestre, esse movimento perdeu força. Agora, o que está no radar é a questão fiscal, e os investidores reavaliam se o Brasil ainda oferece uma boa relação entre risco e retorno:
“O que foi feito na parte fiscal no Brasil ao longo desse ano foi um desastre. O governo está gastando mais de R$ 230 bilhões fora do arcabouço, uma coisa sem precedentes. E, com o horizonte para a frente indefinido, existe um receio de que, se esse governo se reeleger, haverá uma crise importante”, diz Figueiredo.
Estudo do Inter mostra que o bom desempenho do Ibovespa no segundo trimestre foi puxado pelo setor de óleo e gás, que ficou 71% acima das estimativas. Sem esse segmento, o lucro das demais empresas que compõem o índice registraria queda de 2% em relação ao mesmo período do ano anterior. O Inter projeta que o Ibovespa encerre 2026 aos 193 mil pontos, com preço/lucro de 9,5 vezes. Um desconto maior viria de uma piora fiscal ou de uma eleição que adicione mais incerteza, segundo Winalda.
Dólar
Já o banco americano JPMorgan alerta que o real está vulnerável às vésperas da eleição, apesar dos juros altos. A instituição aponta que os investidores estão muito posicionados na moeda brasileira, enquanto o câmbio não oferece um prêmio de risco suficiente para compensar as incertezas.
No caso de uma piora fiscal após as eleições, o JPMorgan projeta que o dólar pode subir 6%, para cerca de R$ 5,50, e os juros dos títulos públicos podem chegar a 15,5%. Já em um cenário de correção da trajetória fiscal, o banco projeta a moeda americana a R$ 4,90, com as taxas dos contratos futuros recuando a 13% (ontem, aqueles de prazos mais longos superavam 14%). Diante dos riscos, a recomendação é manter posição neutra no real.
O mercado brasileiro tradicionalmente não tem bom desempenho nos seis meses antes de eleições presidenciais, lembra Elisa Machado, economista-chefe da KAT Investimentos. Ela chama atenção também para o fato de o Ibovespa ter pouca exposição ao avanço da IA, enquanto as Bolsas americanas e de países asiáticos concentram papéis do setor, o que atrai recursos. (Com informações do jornal O Globo)
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