Domingo, 01 de março de 2026
Por Márcio Coimbra | 28 de fevereiro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A ascensão da China no cenário brasileiro transcendeu a balança comercial para se tornar o eixo de uma complexa reconfiguração geopolítica. O que antes era visto como uma “parceria estratégica” evoluiu para uma dependência estrutural, operada por meio do que analistas definem como Sharp Power. Diferente da sedução do Soft Power, essa força busca perfurar e manipular o ambiente institucional de democracias para neutralizar críticas e garantir os objetivos de longo prazo do Partido Comunista Chinês.
No Brasil, o “cercamento” econômico é evidente na infraestrutura. Entre 2007 e 2024, cerca de 45% dos investimentos chineses concentraram-se no setor elétrico. Gigantes estatais como a State Grid e a China Three Gorges não operam sob a lógica do lucro imediato, mas como braços do Estado chinês em setores vitais. Ao controlar redes de transmissão e geração, Pequim adquire um poder de barganha assimétrico: a infraestrutura nacional torna-se um ponto de pressão externa, onde decisões soberanas podem ser constrangidas pela ameaça velada de desinvestimento ou retaliação.
A infiltração digital atua como o sistema nervoso dessa estratégia. A onipresença da Huawei nas redes de 5G ignora o custo oculto da segurança de dados. Sob a Lei de Inteligência Nacional da China, tais empresas são obrigadas a cooperar com o aparato de inteligência de Pequim. Paralelamente, a venda de tecnologias de “Safe Cities” (vigilância e reconhecimento facial) para governos locais importa não apenas hardware, mas um modelo de governança onde o monitoramento substitui a privacidade como norma social.
Um dos aspectos mais sofisticados é a “diplomacia subnacional”. Pequim compreendeu que, no federalismo brasileiro, é mais eficaz cooptar governadores e prefeitos do que enfrentar a resistência do Itamaraty. Ao financiar projetos regionais — de pontes a mineração — a China cria uma base de líderes estaduais que atuam como lobistas ativos de seus interesses em Brasília. Essa penetração é blindada pela captura acadêmica via Institutos Confúcio, que promovem uma narrativa sanitizada da história chinesa e cooptam elites intelectuais através de intercâmbios e bolsas.
Além das esferas técnica e política, a infiltração manifesta-se de forma incisiva no domínio da informação. Através de parcerias estratégicas entre o China Media Group e conglomerados de mídia brasileiros, Pequim busca moldar a percepção pública, suavizando arestas críticas e promovendo uma visão de benevolência estatal. Esse controle narrativo é um componente essencial da guerra híbrida moderna, onde a desinformação ou a omissão seletiva de fatos geopolíticos sensíveis — como as tensões no Estreito de Taiwan ou a repressão em Xinjiang — servem para blindar a influência chinesa contra resistências populares, consolidando uma hegemonia silenciosa que precede a dominação econômica.
O Brasil encontra-se em uma encruzilhada. O pragmatismo comercial é necessário, mas não pode servir de salvo-conduto para a vulnerabilidade estratégica. A soberania no século XXI defende-se com transparência, segurança dos dados e autonomia sobre os fluxos de energia. É preciso separar o parceiro comercial do domínio institucional, garantindo que o Brasil não seja apenas um tabuleiro, mas um jogador ativo em sua própria história, dono de sua própria soberania.

(Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais – Abrig. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos – 2007. Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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