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Economia Europeus desperdiçam mais comida que brasileiros

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Crise internacional de insumos já encarece safra de milho que tem plantio no verão e deve responder por 75% da produção do grão no ano que vem.(Foto: Sri Lanka/Unsplash)

A Europa desperdiça um volume anual de comida per capita maior do que o Brasil, segundo o Índice de Desperdício de Alimentos 2021, documento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) com estudos de 54 países sobre o tema. Os dados, divulgados em março, contrastam com recente fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, em evento da Associação Brasileira de Supermercados.

Na ocasião, ele criticou os “excessos” nas refeições dos brasileiros. “Quando você vê um prato da classe média europeia, que já enfrentou duas guerras mundiais, são pratos relativamente pequenos. E os nossos aqui nós fazemos almoços em que muitas vezes há uma sobra enorme. Até o final da refeição da classe média alta há excessos”, disse o ministro.

“O problema de desperdício de alimentos é grande mesmo em países que enfrentaram as duas guerras”, afirmou o pesquisador de Alimentos e Territórios da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Gustavo Porpino, um dos revisores do índice. Para ficar nos exemplos de Guedes, o alemão descarta 75 kg de comida por ano, o francês, 85 kg, e o britânico 77 kg. Os menores números são da Rússia, da Eslovênia e da Áustria: 33, 34 e 39 kg. O brasileiro, por sua vez, desperdiça 60 kg anualmente. Esse valor, no entanto, começou em 41,6 kg.

Isso acontece porque o documento do Pnuma reuniu diferentes estudos, classificando-os com alta, média ou baixa confiabilidade. No Brasil, a pesquisa selecionada, da qual Porpino participou, foi feita pela Embrapa e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e disponibilizou um diário alimentar para 686 famílias registrarem suas sobras em texto e foto. Mas especialistas consideram que voluntários podem subestimar as perdas de alimentos com o método, por isso, o valor foi ajustado no relatório global.

A maneira mais eficaz de avaliar o desperdício é pela análise de lixo domiciliar, chamada de gravimetria de resíduos. A técnica é mais utilizada na Europa porque os países são menores e têm coleta seletiva. Aqui, além das dificuldades geográficas e de descarte de resíduos, há especificidades da cultura. Em uma pesquisa de campo para seu doutorado com, 50 famílias de baixa renda de São Paulo, Brasília e Ithaca (EUA), Porpino observou que os restos de alimentos podem ir para o cachorro, para as galinhas ou para o adubo, e isso a gravimetria não mostra.

Desperdício não tem classe

Países emergentes têm desperdiçado no nível de países ricos. De acordo com Porpino, há algumas hipóteses para isso. A família pode não ter os meios necessários para conservar os alimentos e é possível também que, sem ajuda em casa nem tempo, a pessoa que cozinha prepare uma quantidade maior de comida, o que pode terminar estragando na geladeira. Além disso, trabalhadores assalariados fazem uma compra única mensal. “Quando as famílias podem fazer compras menores e mais planejadas, há menor desperdício”, explica ele.

Mas o desperdício não se restringe à mesa. O pesquisador destaca os problemas que ocorrem no campo brasileiro, como pragas e uso de embalagens inadequadas, que podem acelerar o processo de apodrecimento. Pode ocorrer ainda o desequilíbrio entre oferta e demanda, como a escolha estética de supermercados não comprarem determinados alimentos, o que levaria o produtor a perder colheitas.

Os problemas de produção e oferta também atingem países ricos, e se somam a eles as influências do clima no Hemisfério Norte. Mas, de acordo com Porpino, o desperdício na etapa de consumo é global e a diferença acaba ficando mesmo sobre o que se descarta. Na pesquisa da Embrapa e FGV, observou-se que famílias das classes A e B desperdiçam mais frutas e hortaliças, resultado que reflete o baixo consumo de alimentos saudáveis entre os mais pobres.

Para explicar o problema no Brasil, o pesquisador cita a cultura da fartura, segundo ele, herdada da colonização portuguesa e impulsionada pelo bandwagon effect, fenômeno em que a classe média baixa buscaria reproduzir hábitos de consumo da classe alta, inclusive na alimentação. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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