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Brasil Ex-deputado paranaense que matou jovens em desastre de carro vai a júri popular. “Terei de provar a inocência do meu filho?”, questiona mãe de vítima

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Fernando Ribas Carli Filho, em entrevista à Gazeta do Povo, do Paraná: “Bebi e dirigi. Errei, mas não sou um assassino”

Após quase nove anos do acidente de trânsito que matou dois jovens em Curitiba, no Paraná, a Justiça do Paraná marcou para terça-feira o início do júri popular que julgará o ex-deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho, envolvido no acidente e denunciado por duplo homicídio.

O agravante de dolo eventual, quando o envolvido assume o risco de matar, foi incluído na acusação por ele estar embriagado ao volante.

O julgamento já havia sido agendado outras duas vezes nos últimos anos, mas foi cancelado após cortes superiores aceitarem recursos da defesa do ex-parlamentar.

Em novembro de 2017, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes revogou liminar que impedia que Carli fosse a júri popular. A decisão permitiu, enfim, a remarcação do julgamento.

O acidente que matou Gilmar Rafael Yared, 26 anos, e Carlos Murilo de Almeida, 20 anos, ocorreu na madrugada do dia 7 de maio de 2009. Os amigos morreram na hora e o ex-deputado ficou internado por um mês.
Exame etílico do IML (Instituto Médico Legal) indicou que Carli dirigia embriagado. Segundo o laudo, havia em seu sangue cerca de oito decigramas de álcool por litro, quatro vezes o limite permitido, de dois decigramas.

Posteriormente, em depoimento à Justiça, ele próprio admitiu que havia bebido naquela noite. Também afirmou que não se recordava do acidente.

Laudo do Instituto de Criminalística do Estado constatou que o ex-parlamentar dirigia a uma velocidade entre 167 e 173 quilômetros por hora. O limite da via é de 60 quilômetros por hora. Com 130 pontos na carteira de habilitação, 110 acima do permitido, Carli não poderia ter assumido o volante.

A perícia indicou, ainda, que o veículo “decolou” por ao menos dez metros antes de bater no automóvel das vítimas. Segundo a investigação, o carro do deputado vinha em alta velocidade quando passou sobre uma inclinação, perdeu o contato com o solo e voou em direção ao teto do automóvel onde estavam os dois jovens.

Família

A pastora e hoje deputada estadual Christiane Yared (PR), contou ao jornal Correio do Estado, do Paraná, que dormia em casa, ao lado do marido, quando foi acordada na madrugada por agentes funerários que buscavam sua assinatura para um seguro.

“Queriam o DPVAT. ‘A senhora assina aqui, ó.’ Eu em pânico, desesperada, querendo saber o que aconteceu… ‘Não, a senhora assina aqui para a liberação do corpo.'”

Ela relata que o marido foi ao IML, onde orientaram que outra pessoa reconhecesse o corpo. “Um senhor que estava lá falou: ‘Não entre. Eu trabalho aqui há mais de 15 anos e nunca vi nada igual. O senhor não vai mais dormir’.” Por esta razão, o caixão do filho de Christiane foi lacrado. “Da altura dos ombros para cima não tinha nada. Eu chorei em cima de um pedaço de madeira”, afirma.

Cinco anos após a morte do filho, Christiane se tornaria a deputada estadual mais votada no Paraná, com mais de 200 mil votos, e teria como principal bandeira a segurança no trânsito. Ela diz esperar que o júri popular sirva para criar jurisprudência em torno do tema.

“O júri não é só pelo filho que morreu. A justiça é para os vivos, gente morta descansa”, afirma. “Punir é uma maneira de educar.”

A deputada diz que a Justiça é conivente com os acidentes por “todas as brechas e recursos” que a lei oferece. “Há processos que cabem até 35 recursos. Até onde vai? Até prescrever”, afirma. Christiane diz acreditar que a pressão popular envolvendo o caso do filho foi responsável por dar prosseguimento à ação penal.

A parlamentar ressalta que os acidentes de trânsito estrangulam a saúde pública, a previdência e o Judiciário. Segundo ela, o problema não é devidamente combatido porque existe uma “indústria da morte sobre rodas”. “Quem são? Montadoras, seguradoras, hospitais, empresas de prótese, cemitérios, funerárias, floriculturas, clínicas… Todo mundo se beneficia. É algo macabro.”

Sobre acusações de que teria usado a morte do filho para se promover, Christiane ironiza: “Realmente, pedi para matarem meu filho, acabar com a minha vida, largar minha família, me envolver com um monte de problemas no Congresso Nacional”.

Ela afirma que costuma responder que, enquanto usar a morte do filho, “o teu vai ter a chance que o meu não teve”. “Você acha que eu não abriria mão de tudo isso para ter meu filho comigo de volta?”

Procurada, a defesa de Carli não retornou os contatos da reportagem.

Tribunal do júri

O Tribunal do Júri é responsável por julgar crimes dolosos contra a vida. Neste julgamento, cabe a um grupo de cidadãos decidir se houve crime e se o réu é culpado ou inocente. A cada processo, 25 pessoas são sorteadas para comparecer no dia. Então, novo sorteio define as sete que ficarão responsáveis pela sentença. Estima-se que cerca de 200 pessoas assistam ao júri de Carli Filho.

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