Quarta-feira, 13 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 9 de julho de 2019
A rápida mudança nas perspectivas de juros dos Estados Unidos – de alta para queda – poderá representar uma janela de oportunidade para o Brasil retomar a trajetória de crescimento, avalia o ex-diretor de Política Monetária do BC (Banco Central), Rodrigo Azevedo.
Ele explica que, se os juros americanos forem reduzidos, pode haver aumento da liquidez mundial no segundo semestre e o Brasil pode se beneficiar desse cenário, se já tiver aprovado a reforma da Previdência e sinalizar sobre um nova agenda pró-ambiente de negócios. “As estrelas podem voltar a se alinhar para o governo brasileiro.” Depois de deixar o BC, em 2007, Azevedo se tornou sócio da Ibiúna Investimentos, que faz a gestão de mais de R$ 6 bilhões.
O ano começou com expectativa de crescimento de 2,5%. O cenário mudou e hoje a previsão está abaixo de 1%. Como vocês veem esse novo quadro?
“Até 2014 e 2015, tínhamos uma presença muito grande do Estado, seja por meio dos gastos diretos – que cresciam a uma taxa média real de 6% nos últimos 15 anos – ou pela expansão do crédito subsidiado. Nesse ambiente, o crescimento dependia muito da presença do Estado e, numa economia de pleno emprego, o setor privado estava mais retraído. Com a crise de 2015 e ajuste das contas públicas houve redução desse impulso vindo do Estado. Essa força que empurrava a economia foi retirada, o que abriu espaço para o setor privado entrar”.
Mas há ambiente para o setor privado investir?
“Essa é a questão. Para o setor privado ocupar esse espaço, é preciso ter confiança. Há algum tempo as perspectivas estão sendo frustradas. Quando Joaquim Levy entrou no governo [Dilma Rousseff], e [Henrique] Meirelles e Ilan [Goldfajn], no governo de Michel Temer, o mercado ficou animado. Mas o ímpeto foi frustrado. Quando passou o período eleitoral, houve um surto de confiança com a nova agenda do governo, mais favorável ao ambiente de negócio, ao crescimento econômico e à reforma da Previdência. Mas, por uma série de razões associadas a maneira como a política econômica vem sendo implementada e a dependência do executivo ao legislativo e ao judiciário, essa confiança retrocedeu”.
É possível recuperar essa confiança?
“Hoje há um ceticismo grande sobre a capacidade do governo entregar uma agenda que é construtiva e muito positiva. O governo vai ter de entregar uma série de medidas para conseguir dar nova perspectiva de menos incerteza no médio prazo. Isso é crucial para o País voltar a crescer”.
Este ano está perdido em termos de crescimento?
“É possível lançar neste ano as bases de um crescimento expressivo em 2020. Se o governo conseguir aprovar a reforma da Previdência e, em seguida, lançar uma agenda pró-ambiente de negócios, podemos terminar 2019 numa vertente maior de crescimento e entrar em 2020 com uma perspectiva positiva. Se isso for feito, 2019 não será um ano perdido. A reforma é crucial e tem duas questões importantes: como indico para a sociedade que sou solvente no longo prazo e que a minha trajetória de dívida/PIB não é explosiva. Outra questão é que a reforma ganhou um peso simbólico”.
Como assim?
“É uma reforma ampla, difícil de ser aprovada, difícil de ter apoio político e, por isso, virou simbólica do ponto de vista da capacidade de implementação deste governo. Se conseguirmos passar uma reforma da Previdência num prazo razoável e com um impacto relevante naturalmente as pessoas vão olhar e falar que tem uma parte grande do resto da agenda que provavelmente também será factível. Com isso, você começa a dar o benefício da dúvida e ter uma chance de ser o gatilho do crescimento”.
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