Sábado, 30 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 14 de janeiro de 2018
Ameaçar deixar uma reunião cheia de homens por causa de piadas machistas. Ouvir de um colega de trabalho “trouxe um paninho para você limpar meu computador”. Ter uma funcionária assassinada pelo marido. As executivas enfrentam casos de assédio em seu dia a dia, seja com elas ou com colegas.
As estratégias adotadas por elas se dividem entre se esquivar, criar redes de proteção nas empresas e denunciar. O forte debate sobre o assunto — que ganhou os holofotes na premiação do Globo do Ouro, em Hollywood — está pressionando as companhias a implementarem canais de denúncia para combater os abusos e estimulando a adoção de políticas de equidade de gênero. Enquanto isso, as mulheres ganham voz.
” Sofri muito com isso (assédio). Nunca fiz uma denúncia oficial porque sentia que eu, a parte mais fraca, seria prejudicada”, conta Maria Fernanda Teixeira, que fez carreira em multinacionais e hoje é CEO da Intergrow, consultoria para programas de governança corporativa, gestão de riscos e compliance.
Uma versão corporativa da campanha #MeToo — que encorajou mulheres a dividirem experiências de abuso nas redes sociais — traria relatos como o de Maria Fernanda. Ou como o da economista Monica de Bolle, que ameaçou sair de uma reunião por causa das piadas machistas. Ou, ainda, a de Luiza Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza: “Tive uma gerente morta pelo marido.”
Silvia Fázio, presidente da Woman in Leadership in Latin America, organização que trabalha pelo desenvolvimento de carreira de mulheres na região, afirma que todas as executivas têm uma história para contar, ainda que não seja a delas mesmas.
“Uma em cada três mulheres no mundo sofreu, está sofrendo ou vai sofrer assédio. Não adianta Catherine Deneuve dizer que é um exagero. Exagero são os anos de tolerância e subordinação das mulheres dentro e fora das empresas. A grande questão da Humanidade é resolver a diferença de gênero e da violência culturalmente admitida contra a mulher”, diz Raquel Preto, sócia-fundadora do escritório Preto Advogados, em São Paulo.
O debate sobre desigualdade de gênero e assédio está fortalecendo as mulheres, a ponto de as denúncias terem aumentado nos últimos anos. Segundo o Ministério Público do Trabalho, foram 165 denúncias de assédio sexual em 2012, crescendo para 340 em 2017, mais que o dobro.
“Às vezes a vítima se cala. Relatar é tão ou mais constrangedor que o ato. Falta um setor para recebimento das denúncias e trato adequado nas empresas. Quando a denúncia chega até nós é porque a situação está chegando a um ponto inimaginável”, afirma Valdirene de Assis, procuradora do Trabalho.
Ela lembra que é crime, passível de prisão de um a dois anos, se o assédio vier de um superior, com promessa de promoções em troca de vantagem sexual. Houve mais de mil queixas de assédio sexual entre 2009 e agosto de 2017, em 110 empresas, segundo registros da consultoria Protiviti, que instala e administra canais de denúncias.
Assédio ou paquera
Ainda existe muita gente na dúvida sobre o que é assédio e o que é paquera, coisas completamente diferentes. O flerte não precisa acabar, é verdade, mas está na hora de todos entenderem quando os limites estão sendo extrapolados.
A socióloga Jacqueline Pitanguy faz uma consideração inicial importantíssima antes de responder às questões que deve ser levada em consideração. Não há como diagnosticar se uma situação é assédio ou paquera sem saber todos os meandros da relação.
“As relações humanas são ambíguas, e o erotismo está presente na nossa vida cotidiana. Nesse sentido, estabelecer fronteiras rígidas e imutáveis entre assédio e paquera é difícil, pois há uma série de fatores, desde a história individual das pessoas envolvidas ao contexto cultural e político. O grau de consciência do desrespeito em uma relação afetiva, sexual, profissional, na rua ou em casa tem a ver com nossa autoestima. Assim como a percepção, por parte do outro, de que está sendo inconveniente, desrespeitoso ou violento depende da forma como se situa em seus relacionamentos humanos, pessoais ou profissionais. O feminismo tem tido um papel fundamental em promover a autoestima das mulheres, a percepção de que seu lugar no mundo é de igualdade e não de subalternidade e a tornar mais claras as fronteiras entre paquera e assédio”, avisa Jacqueline.
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