Quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 23 de outubro de 2021
Os exportadores brasileiros de carne para a China estão em compasso de espera por causa da suspensão das vendas. O pecuarista Francisco Manzi olha preocupado para o gado. Ele cria cerca de 150 bois em Mato Grosso. O investimento este ano foi alto, mas o preço da arroba caiu muito nos últimos dias.
“Paguei R$ 5 mil num boi magro em torno de 15 e 16 arrobas. Hoje ele está pesando 20 arrobas e vale os mesmos R$ 5 mil”, conta Francisco. A queda de preço está ligada a problemas nas vendas para o nosso maior comprador.
As exportações de carne bovina do Brasil para a China foram suspensas no dia 4 de setembro depois do registro de dois casos atípicos do mal da vaca louca. A situação sanitária foi resolvida, mas de lá para cá os chineses não voltaram a comprar a carne brasileira. A situação tem deixado muitos pecuaristas sem saber o que fazer.
“O principal mercado que nós temos hoje na compra de carne nas exportações é a China, com mais de 56%, e nesse momento não ter uma definição se eles vão retomar em curto espaço de tempo preocupa bastante o produtor diante dos investimentos que já foram feitos”, diz Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA.
Paralisações
Nesta semana, o Ministério da Agricultura emitiu um ofício circular, determinando a paralisação de novas produções dos exportadores de carne brasileiros habilitados a exportar para os chineses e autorizou as indústrias a estocarem, por 60 dias, em contêineres refrigerados, a carne produzida antes da data da suspensão.
Em nota, o Ministério afirmou ainda que o governo brasileiro aguarda posicionamento da China sobre a retomada das exportações e que o Brasil tem mantido negociações e fornecido todas as informações técnicas solicitadas pelas autoridades sanitárias chineses. No momento, os produtores aguardam a retomada das exportações e o consumidor espera que a queda nos preços se reflita nas gôndolas.
“O preço da arroba do boi gordo se desvalorizou 20% nos últimos 18 dias e o preço da carne bovina também no atacado se desvalorizou em torno de 15 a 20% a depender do corte, mas o varejo ainda não reduziu os preços e, por isso, o consumidor hoje não consegue sentir essa redução na gôndola do supermercado e dos açougues, mas a persistir esse cenário, sim é possível que o consumidor final observe uma redução do preço da carne bovina”, afirma Bruno Lucchi.
Vaca louca
O nome pode não ser tão popular agora, mas o mal da vaca louca ficou conhecido mundialmente após o surto da doença entre as décadas de 80 e 90, no Reino Unido. A epidemia tornava os animais perigosos, daí seu nome, e também assustava porque podia haver contaminação de humanos.
O tema voltou ao noticiário brasileiro após governo confirmar que investigava uma suspeita em Minas Gerais, no início de setembro. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) confirmou a ocorrência em Belo Horizonte e de outro caso em Nova Canaã do Norte, em Mato Grosso.
Nos dois casos, trata-se da “origem atípica” doença, ou seja, não ocorreu por causa de contaminação, que poderia afetar mais de um bovino por vez, mas por causa de uma mutação em um único animal.
A Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), que foi notificada das ocorrências, informou na época que elas não representam risco para a cadeia de produção bovina brasileira. Os países importadores também foram informados.
Em 20 anos de monitoramento da doença, o país nunca identificou a forma mais tradicional, que é quando o animal é contaminado por causa de sua alimentação, segundo Vanessa Felipe de Souza Médica-Veterinária, Virologista, Pesquisadora da Embrapa Gado de Corte.
O surto
O primeiro grande surto da doença teve seu auge entre 1992 e 1993, quando foram confirmados quase 100 mil casos no Reino Unido. Estima-se que 180 mil cabeças de gado tenham sido afetadas e mais de 4 milhões de animais foram sacrificados na época. Durante este período, o consumo de carne bovina ficou, inclusive, proibido naquele país.
A enfermidade é fatal e acomete bovinos adultos de idade mais avançada, provocando a degeneração do sistema nervoso. Como consequência, uma vaca que, a princípio, era calma e de fácil manejo, por exemplo, se torna agressiva, daí o apelido do distúrbio.
A encefalopatia espongiforme bovina, nome científico da doença, é gerada por uma proteína infecciosa chamada príon. O príon já é presente no cérebro de vários mamíferos naturalmente, inclusive no ser humano, contudo, ele pode se tornar patogênico ao adotar uma forma anormal e se multiplicar demasiadamente.
Quando isso acontece, o príon mata os neurônios e no lugar ficam buracos brancos no cérebro, por isso o nome da doença de “espongiforme”, já que os buracos têm a forma semelhante a de uma esponja.
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