Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 22 de dezembro de 2015
“Passeava com a minha filha, quando ela se encantou com um cavalinho pula-pula em uma loja. Ela pediu tanto que eu disse que voltaria depois para buscá-lo. Mas, naquele momento, eu e meu marido tínhamos aberto uma empresa e a nossa situação financeira estava difícil. Quando chegou perto do Natal, não tinha dinheiro para nada, cheguei a chorar porque não podia comprar o pula-pula. Até que consegui fazer uma venda que era o valor certinho do brinquedo. Não tive dúvida: peguei o dinheiro de outro cliente para pagar o fornecedor e comprei. Esse valor fez falta mais tarde na empresa, mas ver a felicidade da minha filha ao receber o presente foi muito emocionante.”
Essa é a história da empresária Fernanda Nogueira, 25 anos, mãe de Ananda, 3. Mas poderia ser também a de muitas outras mães brasileiras. Um estudo realizado pelo SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas revelou que 64,4% das mães entrevistadas, em 27 capitais, não resistem aos apelos dos filhos. O percentual é ainda maior entre as mães de meninas, como é o caso de Fernanda: 68,9%. A pesquisa também ressaltou que quatro a cada dez mães, ou 36,7% das que foram ouvidas, já ficaram em algum momento endividadas em decorrência das compras que fizeram para os filhos. Além disso, 9,9% deixaram de comprar produtos importantes para a casa ou de pagar alguma conta pela mesma razão.
Segundo a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, é muito comum os pais darem aos filhos presentes que estão fora do padrão de vida familiar, o que sacrifica não só o orçamento doméstico, como ensina um comportamento financeiro irresponsável à criança. “Isso faz com que a criança se acostume com um padrão que não é o dela. Outra lição que ela vai aprender é que, se não houver dinheiro suficiente para comprar o que deseja, bastará se endividar.”
Para a psicoterapeuta Ana Olmos, conselheira do projeto “Criança e Consumo” do Instituto Alana – ONG de defesa da infância –, a atitude não contribui para o amadurecimento dos filhos. “A criança deve perceber que não é sempre que realizamos nossos desejos. Se existe prazer o tempo inteiro, ela não aguentará frustração alguma.” E como as crianças se orientam pelo que veem no comportamento dos pais, os adultos também precisarão aprender a lidar com as próprias frustrações.
Na tentativa de demonstrar amor, os pais podem estimular o consumismo dos filhos ao dizer “sim” a todos os desejos deles. Porém, de acordo com o especialista em educação financeira Álvaro Modernell, negociar o desejo dos filhos é fundamental.
“Com crianças maiores, o pai pode combinar de não dar presente no Dia das Crianças e cortar a saída do fim de semana para que o filho receba o celular que quer no Natal. É isso ou um modelo mais simples de telefone, que caiba no orçamento”, diz.
Datas.
Para a educadora financeira especializada em crianças Cássia D’Áquino, devem ser fixadas datas para dar presentes. Assim, as crianças aprenderão a esperar e terão tempo para perceber se aquele desejo é mesmo real. O comportamento contribuirá com a vida financeira do filho lá na frente. “Alguém que fica no cheque especial porque precisa de um objeto é alguém que não aprendeu a esperar”, ressalta.
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