Sexta-feira, 10 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 10 de julho de 2026
Após um semestre marcado por aprendizado, desafios e jornadas intensa, as férias escolares de inverno costumam significar mais tempo livre para as crianças, o que muitas vezes se traduz em mais tempo dedicado às telas. Celulares, tablets, videogames e televisão passam a ocupar parte da rotina durante o recesso, muitas vezes acima do recomendado por especialistas.
Um levantamento realizado em 2025 pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Instituto Datafolha mostra o quanto esse tipo de tecnologia já fazem parte da infância. Com foco na chamada “primeira infância” (zero a 6 anos), a pesquisa aponta que 78% das crianças de até 3 anos utilizam diariamente tais dispositivos, índice que salta para 94% na faixa de 4 a 6 anos.
O cenário contrasta com as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), cuja recomendação é que a gurizada de até 2 anos não tenha contato com telas. Já entre 2 e 5 anos o tempo não deve passar de uma hora diária, ao passo que dos 6 aos 10 o limite ideal é de duas horas por dia.
Com a palavra…
Coordenadora de Ensino Fundamental I do Colégio Anchieta, em Porto Alegre, Tatiane Ayala contextualiza as férias como oportunidade para as famílias repensarem hábitos e encontrarem um equilíbrio saudável entre o uso da tecnologia e momentos de convivência:
“Esse universo digital faz parte da vida das crianças e oferece possibilidades importantes de entretenimento e aprendizagem. O desafio não é eliminá-lo da rotina, mas garantir que ocupe espaço equilibrado, sem substituir experiências que favoreçam o desenvolvimento infantil e reforcem vínculos”.
Ainda segundo a educadora, experiências simples do cotidiano são capazes de proporcionar aprendizagens tão significativas quanto atividades estruturadas. Brincar ao ar-livre, preparar uma receita em família, montar um quebra-cabeça, desenhar, ler um livro, visitar um museu, caminhar em um parque ou conversar com pessoas próximas estimulam criatividade, imaginação, autonomia, linguagem e habilidades de convivência.
Ela acrescenta que nem sempre é preciso viajar ou investir em passeios para que o período seja marcante. “Muitas das lembranças afetivas da infância nascem dentro de casa. Uma tarde de jogos, uma cabana feita com lençóis, um chocolate quente em um dia frio ou uma visita aos avós costumam permanecer na memória por muitos anos. O que faz diferença é a qualidade da presença dos adultos.”
Para crianças entre 6 e 11 anos, essa convivência é importante para o amadurecimento emocional. Alguns minutos de atenção exclusiva, com escuta, brincadeira e interação verdadeira, podem ser mais significativos do que horas compartilhando o mesmo ambiente enquanto cada um permanece concentrado na própria tela. Outro aspecto valorizado pela especialista é permitir que exista espaço para o chamado “ócio criativo”:
“Nem todo momento precisa ser planejado. Quando experimentam um pouco de tédio, as crianças inventam brincadeiras, criam histórias, exploram materiais e descobrem interesses que dificilmente apareceriam em uma rotina completamente preenchida.”
O recesso também pode ser um bom momento para estabelecer novos combinados sobre o uso da tecnologia. Definir horários para celulares, videogames e televisão, alternando atividades online e offline e envolvendo as crianças nessas decisões, contribui para o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade. “Mais do que controlar, trata-se de educar para o equilíbrio”, destaca Tatiane.
As férias também fazem parte de um processo educativo, ao favorecer momentos de descanso, contemplação, convivência e cuidado consigo, com a família e a natureza. Tatiane conclui:
“Provavelmente as crianças não se lembrarão de todos os vídeos que assistiram durante o recesso, mas dificilmente esquecerão da caminhada em uma manhã de sol, do bolo preparado em família ou da brincadeira inventada na sala de casa. São experiências que fortalecem vínculos e constroem memórias afetivas para toda a vida”.
(Marcello Campos)
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