Quinta-feira, 08 de janeiro de 2026
Por Redação O Sul | 6 de janeiro de 2026
Os fiscais do Banco Central encontraram uma conexão entre o dinheiro supostamente desviado por meio de fundos de investimentos mantidos na gestora Reag e as operações supostamente fraudulentas entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB).
É justamente o dinheiro que resulta desse conjunto de operações, realizadas por “laranjas”, que o BC pediu para congelar em comunicação ao Ministério Público em novembro. A autoridade monetária receia que a demora em bloquear os recursos possa comprometer a sua recuperação futura.
Fontes ouvidas pelo jornal Valor Econômico informaram que há uma ligação entre as duas grandes linhas de investigação no caso do Master que já vieram a público, uma que envolve o Banco de Brasília (BRB) e outra que envolver a Reag DTVM. Há outras investigações em andamento, que podem culminar com novas comunicações ao Ministério Público.
Entre julho de 2023 e julho de 2024, segundo apurações comunicadas ao MP em 17 de novembro, teria havido o desvio de R$ 11,5 bilhões do Master por meio de empréstimos supostamente simulados, com trânsito de recursos por fundos mantidos na Reag. A informação foi publicada pela Folha de S.Paulo e confirmada pelo jornal Valor Econômico.
O que não se sabia, até agora, é que uma parcela desses recursos, segundo outra frente de investigação, quase voltou à própria instituição controlada por Daniel Vorcaro por meio de aportes de capital feitos por supostos laranjas, com instrumentos híbridos de capital e dívida, no Master e no BRB.
Os fiscais do Banco Central, numa das frentes da investigação, rastrearam o dinheiro que saiu do Master e foi movimentado por meio de fundos na Reag.
O primeiro passo foi a realização de dezenas de operações de crédito, com valores até R$ 500 milhões, entre o Master e empresas supostamente ligadas ao sistema de desvio de recursos. Os empréstimos tinham prazo de carência de até quatro anos.
As empresas que tomaram os empréstimos no Master fizeram investimentos em fundos mantidos na Reag, após o recolhimento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Isso transmitia uma imagem de solidez das operações, aos olhos dos fiscais do BC, porque as companhias tinham de um lado dívidas e, de outro, ativos em fundos.
Só que esses ativos, segundo a apuração do BC, eram inflados. Os fundos que receberam aportes das empresas compraram papéis sem referencial de preços em mercado – um dos mais usados foram supostos créditos junto ao antigo Banco Estadual de Santa Catarina (Besc). O fundo pagava caro por um papel que valia pouco, ou quase nada, e lançava o ativo no balanço com um preço sobrevalorizado.
Quem vendeu esses papéis, segundo o relato feito pelo BC ao MP, fazia parte do esquema e desviava a diferença. O “lucro” transitava, então, por vários outros fundos ligados à Reag, para dissimular o real beneficiário. O BC rasteou essas movimentações e descobriu que o dinheiro terminou com laranjas.
É nesse ponto que as investigações se conectam. Conforme revelou o jornal Valor Econômico em novembro, o Master e o BRB submeteram ao Banco Central vários pedidos de aporte de capital por meio de instrumentos híbridos de capital e dívida. Nas propostas, os mesmos laranjas faziam o aportes de capital, a partir de fundos administrados pelo Reag que, anteriormente, haviam recebidos recursos que tinham sido desviados do próprio Master pelos empréstimos simulados.
Alguns desses pedidos foram recusados porque as instituições não conseguiam comprovar a origem dos recursos. Havia titulares, segundo as apurações, com pouco mais de 20 anos que não tinham capacidade financeira.
Os relatos do Banco Central ao MP mostram que alguns desses laranjas apareciam tanto em tentativas de aporte de capital no BRB (o que ampliaria o fôlego para o banco estatal fazer operações de socorro ao Master) quanto junto ao próprio Master.
O BC pediu o congelamento desses fundos em novembro de 2025. Esse bloqueio, até que sejam feitas todas as investigações, é considerado essencial para recuperar pelo menos parte dos prejuízos que deverão ser arcados pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) com a liquidação do Master.
As investigações do caso Master foram levadas à alçada do Supremo Tribunal Federal (STF), sob o comando do ministro Dias Toffoli.
O STF informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que “todos os bloqueios já realizados foram mantidos. Não houve novos pedidos nem pela PF ou pelo MPF. Todos os bloqueios foram mantidos e na última decisão o cenário fático não se alterou e não haviam sido recebidos os documentos do BC. No inquérito, não há notícia de pedidos de novos bloqueios”. Também disse que a autoridade policial que cuida do caso havia mencionado que poderia fazer pedidos envolvendo laranjas, mas não apresentou nada até o momento.
A Reag, em nota, reitera que não é alvo da Operação Compliance Zero e não possui qualquer relação com os fatos investigados envolvendo o Banco Master. Os fundos mencionados, diz, são produtos regulados, auditados e supervisionados pela CVM e pelo BC. Todos os aportes, segue a empresa na nota, são obrigatoriamente homologados pelo BC, que checa a origem dos recursos e a capacidade econômica de quem faz o aporte.
Em agosto, a Reag foi um dos alvos da Operação Carbono Oculto, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo a gestora, a suposta associação entre ela e a organização criminosa “não consta de nenhum documento oficial, de nenhuma denúncia, relatório de análise ou manifestação das autoridades competentes”. O Master não se manifestou. As informações são do jornal Valor Econômico.