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Curiosidades Fósseis de dinossauros são pivô de batalha científica e diplomática: maioria dos estudos está nos países ricos, mas itens roubados são quase todos de nações em desenvolvimento

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Todos os dias fósseis de países do chamado Sul Global são roubados e levados para o Norte, para estudo ou exposição em coleções privadas. (Foto: Reprodução)

Em 2007, o ator de Hollywood Nicolas Cage levantou a mão e cobriu o lance feito pelo colega Leonardo DiCaprio em uma casa de leilões de Beverly Hills. Por US$ 276 mil, ele arrematou um crânio de dinossauro de 70 milhões de anos. Sete anos depois, em 2014, o governo americano bateu em sua porta avisando que ele teria de devolver o fóssil, que havia sido roubado da Mongólia. O crânio era de um Tarbosaurus bataar, um gigante de 12 metros de altura que é primo do famoso Tiranossauro rex.

Por seu tamanho e beleza, seus ossos eram com frequência leiloados em grandes casas americanas. Até que em 2012 ele virou parte de um processo movido pela Mongólia contra os EUA e seus vestígios préhistóricos traficados tiveram de ser devolvidos.

A protagonista da primeira disputa judicial do tipo foi a pesquisadora Bolortsetseg Minjin. Ela viu pela televisão o esqueleto sendo leiloado e soube imediatamente que era um dinossauro roubado de seu país. O dinossauro específico existiu apenas no Deserto de Gobi, diferente do T-rex, que é um americano.

Graças a ela, dezenas de fósseis mongóis voltaram para a casa nos últimos anos. O último foi justamente o de Nicolas Cage, que hoje está em exposição no Museu de História Natural de Ulan Bator. O ator perdeu o dinheiro do leilão e o traficante envolvido foi preso.

O Tarbosaurus bataar não foi o único. Na realidade, ele faz parte de um padrão comprovado em uma pesquisa de 2021, atualizada no ano passado: todos os dias fósseis de países do chamado Sul Global são roubados e levados para o Norte, para estudo ou exposição em coleções privadas.

A prática é chamada de colonialismo científico. Diferentemente da apropriação de artefatos durante a época colonial, como a Pedra de Roseta, do Egito, e dos Bronzes do Benin, que estão no Museu Britânico, o roubo de fósseis de dinossauros acontece nos dias atuais, comprados de contrabandistas por colecionadores.

Em 2021, as pesquisadoras Nussaibah Raja, Emma Dunne e cientistas de várias nacionalidades, incluindo o Brasil, decidiram analisar o extenso banco de dados de publicações em paleontologia. A intenção era observar onde estavam os estudos sobre fósseis no mundo em comparação com a origem dos fósseis estudados.

O mapa então ficou claro: os estudos estão praticamente todos acima da Linha do Equador. Os objetos de estudos, porém, são quase todos de países em desenvolvimento, seja na América Latina, Ásia ou África.

Um critério importante era a nacionalidade dos autores. Por exemplo, se uma pesquisa sobre um fóssil da China não tivesse um nome chinês envolvido, era então um caso de colonialismo científico. Com esses dados, os pesquisadores criaram o “índice paraquedas”, que ranqueia os países dos mais “roubados” aos que mais “roubam”. “A ‘ciência paraquedas’ é quando países ou pessoas de países ricos aterrissam em países pobres e levam o que precisam sem interagir com a população. Quisemos quantificar isso”, explica a paleontóloga e coautora da pesquisa, Emma Dunne.

República Dominicana, Namíbia, Tanzânia, Madagáscar, Omã, Quirguistão e Etiópia estão entre os mais mencionados como origem dos fósseis sem ter pesquisadores locais envolvidos. Mongólia, África do Sul, México, Marrocos, Argentina e Brasil também são vítimas frequentes.

Todos esses países possuem gigantescos sítios arqueológicos em exploração. No caso dos dois primeiros, ainda há a presença do âmbar, uma pedra amarela formada por resina de árvore que pode guardar animais fossilizados em seu interior.

Em 97% dos casos, esses estudos estão em países de renda alta ou média alta. EUA, Alemanha, França, Reino Unido, Suíça, Japão, China, entre outros. Muitos deles armazenam os fósseis em si – e até holótipos, o primeiro fóssil usado para descrever uma espécie –, em violação à resolução de patrimônio cultural da Unesco e a várias leis nacionais. A consequência mais óbvia dessa prática é no conhecimento sobre os dinossauros do mundo. Na Mongólia, por exemplo, lar da maior reserva de fósseis do mundo no Deserto de Gobi, poucas crianças sabem que o Velociraptor, o temido dinossauro inteligente de Jurassic Park, é mongol.

“Um pesquisador do Brasil estará mais familiarizado não apenas com o fóssil em si, mas também com o ambiente ao redor. Se você levar um espécime para a Alemanha, será como estudá-lo isolado de seu próprio ambiente, o que significa que poderá perder algumas pistas”, afirma a autora do estudo Nussaibah Raja.

A pesquisa de Raja tem sua limitação, por se tratar apenas de publicações científicas. Não rastreia, por exemplo, quantos são ou onde estão os fósseis não catalogados armazenados em porões de museus mundo afora. Nem quantos estão em coleções privadas. Muitos só são descobertos quando aparecem nas casas de leilões.

A pesquisa causou impacto, assim como o primo mongol do T-rex. Mas quem jogou luz sobre o problema e colocou os dinossauros no centro das disputas internacionais foi um pequeno dinossauro brasileiro com penas.

Na pandemia, a pesquisadora Aline Ghilardi estava trancada em casa, longe de sua família no Natal. Foi quando viu que haviam publicado um artigo sobre um novo dinossauro brasileiro, algo raro. Também era o primeiro dinossauro com penas do Hemisfério Sul. Mais raro ainda. Recebeu o nome de Ubirajara Jubatus (uma mistura de latim e tupi-guarani para “O senhor da lança com juba”).

Isso a animou em um primeiro momento, até que ela viu o nome dos autores. Apenas europeus, nenhum brasileiro. E mais grave ainda: o holótipo estava em um museu em Karlsruhe, na Alemanha. “Eu soltei um longo suspiro e fiz o que qualquer brasileiro faz hoje em dia: fui reclamar na internet”, conta.

Ela desabafou no antigo Twitter sobre como toda a situação a deixava chateada e expôs como a publicação do artigo estava em desacordo com a legislação brasileira (similar à da Mongólia), segundo a qual todo fóssil brasileiro é propriedade do Estado brasileiro.

No final do desabafo, ela lançou a hashtag #UbirajaraBelongsToBrazil (Ubirajara pertence ao Brasil) apenas para agregar o assunto em um único local. O que ela não imaginava era que esse pequeno desabafo seria um divisor de águas na paleontologia mundial e abriria caminho para questões diplomáticas sensíveis. “O caso Ubirajara foi imprevisível, mas mudou as conversações”, disse Emma Dunne.

Por causa de todo o dilema ético e jurídico, e também do barulho dos brasileiros, o estudo que buscava descrever o Ubirajara pela primeira vez teve a publicação interrompida e não é mais considerado válido. Foi a primeira vez que um estudo foi desconsiderado por essas razões por uma revista científica. Os periódicos também tornaram mais rígidas suas normas éticas para publicarem artigos de fósseis de origem suspeita.

O caso se tornou um impasse diplomático entre Brasil e Alemanha. Sua resolução também se tornou um exemplo para outros países que lutam por repatriações. Depois da pressão online, os governos conversaram. Em 2023, o pequeno dinossauro brasileiro voltou para casa e hoje está no Cariri, no Ceará, sua terra natal.

No fim, Ubirajara jubatus nunca foi um nome científico válido, já que o estudo que tentou descrevê-lo nunca foi oficialmente publicado (apenas uma versão). O pequeno dinossauro brasileiro com penas deve ganhar um verdadeiro nome oficial em breve.

Desde então, mais e mais países querem os seus dinossauros de volta. Há disputas envolvendo Alemanha, França, Japão, Coreia do Sul, Portugal, entre outros. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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