Segunda-feira, 26 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 15 de fevereiro de 2016
Cuidado, alerta o técnico do clube britânico Arsenal, Arsène Wenger: um êxodo em massa de talentos do futebol da Europa para a China pode estar a caminho, estimulado por valores recorde de transferências e salários graúdos. “Não sei quão grande é a vontade da China”, disse ele a jornalistas, “mas há uma vontade política muito forte, devemos nos preocupar”.
Sim, a China, o mesmo país cuja seleção de futebol é um fracasso humilhante, refletindo uma longa história de corrupção e manipulação de resultados dos campeonatos locais. No ranking mais recente da Fifa (Federação Internacional do Futebol), a China está só uma posição acima das Ilhas Féroe, um arquipélago rochoso com 50 mil habitantes entre a Islândia e a Noruega.
A China não tem tradição em esportes universitários. Os pais não costumam encorajar os filhos a jogar futebol. As áreas verdes de Xangai, maior cidade do país, são cercadas. E a elite chinesa é obcecada com o golfe, não com o futebol – ainda que as massas de trabalhadores sejam loucas pelo esporte.
Talvez só um estadista poderoso e determinado possa dar uma reviravolta grande o suficiente nesse cenário a ponto de atrair a nata do futebol mundial. E ele está se manifestando na figura do presidente Xi Jinping.
Copa do Mundo.
O torcedor número um da China quer sediar uma Copa do Mundo – e ser campeão. Para isso, ele confiou o rejuvenescimento do seu jogo favorito de infância a um membro do Politburo, a cúpula do Partido Comunista, que está mexendo nos currículos escolares para abrir espaço para treinos de dribles e passes e alocando áreas ao redor do país que vão virar campos de futebol.
O dinheiro está jorrando para uma reformulada Super Liga Chinesa. Os direitos de transmissão de televisão para as temporadas de 2016 a 2020 acabaram de ser vendidos por 1,3 bilhão de dólares, mais de 30 vezes as cifras atuais. Tudo isso vai muito além do futebol. Desenvolver o esporte pode ser visto como um espelho da forma como Xi quer reinventar a economia chinesa. A ascensão do futebol, com a ajuda do setor privado, como uma forma televisada de entretenimento de massa, está em sintonia com a sua visão de crescimento econômico liderado por uma classe consumidora, em vez das exportações.
Há um debate interminável sobre a necessidade de “inovação” e “criatividade” no campo – as duas palavras favoritas do governo na reformulação do modelo econômico. E o talento estrangeiro tem papel fundamental, embora estritamente subordinado, a desempenhar. Todo arranjo reflete as preferências pessoais desse que é supostamente o líder mais poderoso da China desde Mao Tsé-Tung.
Em um sistema onde fortunas privadas são geralmente construídas por meio dos favores do governo – e destruídas quando os ventos políticos mudam de direção –, bilionários estão ansiosos por levar a Copa do Mundo para a casa de Xi. Nas últimas semanas, antes do início da próxima temporada, os donos de clubes chineses gastaram mais que os oligarcas russos que controlam alguns dos times mais lucrativos do Reino Unido.
Lógico que é possível questionar se gastar fortunas na contratação de estrelas de outros países é a melhor forma de desenvolver o futebol na China. Teoricamente, jogadores de nível mundial vão elevar o nível do jogo, lotar estádios e atrair patrocinadores.
Enquanto isso, os valores das transferências de jogadores para a China estão crescendo. O Jiangsu Suning, clube de nível médio pouco conhecido que pertence a um varejista de eletrodomésticos, comprou o brasileiro Alex Teixeira, do time ucraniano Shakhtar Donetsk, por 56 milhões de dólares. Também contratou o meio-campista Ramires, que estava no time inglês Chelsea, por 36 milhões de dólares. A China já conta com 25 jogadores brasileiros em suas duas principais divisões. Entre as contratações mais recentes está a do ex-meia do Corinthians, Renato Augusto, pelo Beijing Guoan; também estão na China dois ex-técnicos da Seleção Brasileira, Mano Menezes e Luiz Felipe Scolari.
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