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Saúde Glúten: o que há de errado na fala de Ivete Sangalo sobre essa proteína

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Ivete Sangalo alegou que tirar o glúten da dieta ajudou a desinflamar seu organismo. (Foto: Reprodução)

Recentemente a cantora Ivete Sangalo postou nas redes sociais que boa parte da sua nova forma física e do seu bem-estar geral se deve à retirada de glúten (uma proteína presente em cereais como trigo e centeio) e da lactose (o açúcar natural do leite) de sua alimentação. Disse estar se sentindo “desinflamada”, que a mudança não foi só estética e que sua performance chegou a melhorar 100%.

É certo que, quando uma pessoa tem alergia, intolerância ou qualquer sintoma relacionado a determinado alimento e o retira da dieta, vai se sentir melhor. Mas o fato de o corpo desse indivíduo reagir de certo modo não significa que tal alimento seja inflamatório para todo mundo. Isso é terrorismo nutricional. Imagine, por exemplo, uma pessoa com alergia à berinjela. O corpo dela apresenta uma resposta inflamatória após o consumo do vegetal. Isso significa que a berinjela é inflamatória para todo mundo? Obviamente que não.

Pessoas com doença celíaca, alergia ao trigo ou sensibilidade ao glúten não celíaca podem apresentar sintomas ao consumir alimentos com trigo, isso é fato. Mas vale lembrar que a farinha de trigo não contém apenas glúten: existem outros componentes capazes de causar sintomas, como amido e frutanos (um tipo de nutriente mais fermentativo chamado FODMAP), entre outros.

Afirmar que “glúten é inflamatório e faz mal” ignora décadas de pesquisa e espalha desinformação. O que seria da saúde dos italianos, que por gerações e gerações baseiam sua culinária nas mais variadas – e deliciosas – massas e afins? Imagine uma nação inteira inflamada.

Claro, existem vários pontos a serem ponderados, mas vamos nos ater aos principais.

O primeiro é que, na presença de sintomas, é preciso investigar a causa. A doença celíaca é séria e altamente debilitante. Isso é indiscutível e o diagnóstico é feito por exames de sangue e genético, além de endoscopia com biópsia de intestino (processo considerado padrão-ouro).

Outro porém é que ainda há uma discussão sobre a chamada sensibilidade ao glúten não celíaca. Alguns dados sugerem que esse quadro pode existir, mas o percentual da população afetada parece ser baixo. O interessante aqui são alguns estudos nos quais o próprio paciente relata se acha que tem ou não essa condição: neles, a prevalência chega a 15%. Mas, quando o estudo é bem conduzido, até mesmo com placebo, a prevalência cai para menos de 2%. E ainda há o debate se, em muitos desses casos, o problema seria realmente o glúten ou outros componentes presentes no trigo.

Por que, então, tanta gente acredita que o glúten é inflamatório? O ponto número um é a extrapolação indevida de estudos.

Há casos de profissionais baseando sua conduta clínica em pesquisas de saliva de vaca. Adoraria estar inventando, mas é verdade. Muitos profissionais não possuem letramento científico e ficam vulneráveis a qualquer informação. Muitos dados vêm de estudos in vitro ou em animais. Outros vêm de estudos agudos em humanos, avaliando o efeito de uma única refeição, por exemplo. Efeito agudo não é igual a efeito crônico. Afinal, nosso corpo se adapta. E respostas inflamatórias transitórias não significam doença.

Além disso, outros fatores interferem muito em como nosso corpo reage aos alimentos, como o estado metabólico, situação emocional (como o estresse), condições de sono, composição da refeição anterior e uso de medicamentos.

Além disso, existem outros fatores que podem causar sintomas:

Processamento da farinha: O trigo é naturalmente bege, já a farinha é branca. O processamento e os aditivos utilizados para branquear e garantir a textura podem influenciar a tolerância individual.

Enriquecimento obrigatório: No Brasil, por lei, a farinha é enriquecida com ferro e ácido fólico. Essa foi uma medida de saúde pública extremamente importante. Porém, algumas pessoas podem ter sensibilidade individual a algum dos componentes adicionados.

Tipo de trigo e fermentação: Existem muitas variedades de trigo, com diferentes teores de proteína. O tipo de fermentação também influencia os sintomas gastrointestinais. Comprar algo que diz ter fermentação natural significa muito pouco. Já os alimentos com fermentações longas tendem a reduzir nutrientes fermentativos e melhorar a tolerância.

Monotonia alimentar: Esse é um ponto crucial. Já atendi paciente que consumia alimentos com farinha de trigo seis, sete vezes ao dia, sem perceber! Pão no café da manhã, bolacha no lanche, massa no almoço, bolo ou salgado à tarde, sanduíche à noite. Você provavelmente não comeria um prato de couve quatro vezes por dia, todos os dias. Então, por que comer trigo várias vezes pareceria razoável? O problema nesse caso pode não ser o glúten, mas a monotonia alimentar. Quando você ingere o mesmo tipo de alimento diversas vezes ao dia, deixa de consumir outros igualmente nutritivos. Não há problema algum em comer trigo se você tolera. A questão é o exagero, o desequilíbrio.

Sempre falo que a nutrição tem uma particularidade complicada: como todo mundo come, todo mundo tem uma opinião para dar. Mas isso não significa que o indivíduo tenha conhecimento sobre o assunto, ou que aquela experiência seja válida para todas as outras pessoas.

Quando nos deparamos com celebridades dando conselhos, falando com entusiasmo sobre sua experiência, pensamos como seria bom conseguir atalhos para atingir com rapidez nossos objetivos… Mas lembre-se: aquele é um relato pessoal, e de uma pessoa leiga.

Quando for impactado por algum conteúdo desse tipo nas redes sociais, em vez de sair cortando alimentos da rotina, pare e pense sobre como melhorar a qualidade de suas refeições. Agora, se você tiver algum sintoma, investigue. Sua saúde física e emocional agradecem. (Desire Coelho – Nutricionista – Agência Estado)

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